sexta-feira, 17 de junho de 2016

A TSUNAMI DA CRIMINALIZAÇÃO E DA DEMONIZAÇÃO

É difícil falar de algo hoje que não seja de antemão criminalizado ou demonizado aqui no Brasil.

Demonizam o Estado e a classe política.

Ora, o Estado é formado pelos cidadãos e por suas diversas instituições – o Estado, quando se trata de um país tão desigual como o nosso, devido a concentração de renda tão imensamente grande como é a nossa, é quase que a única defesa dos mais pobres, por vezes a única mesmo, em relação a assistência que esses possam ter, mesmo que ainda precária, nos âmbitos da educação, da saúde, entre tantos outros âmbitos de tanta vulnerabilidade para os mais empobrecidos do Brasil, que sem este mínimo de assistência estariam em situação ainda mais difícil. A luta deve ser não para demonizar os programas de assistência pública, mas para que melhorem cada vez mais.

Ora, a demonização da classe política é um tiro no pé que o status quo conseguiu incutir nos corações e nas mentes da esmagadora maioria do povo brasileiro, e isto é o que, na verdade, faz com que cada vez mais maus políticos tomem o poder sempre. Sim, porque nossa cidade será governada por um político, nossos Estados e a União também, nossas câmaras municipais, estaduais, federais e o Senado também. Não ligar para a política, e só tê-la como meio de conseguir de um político benefício para si e seus familiares, ou achar que o que rouba menos é o melhor, ou só ligar para política em época de eleição porque é obrigatório votar, tudo isso é o que os maus políticos querem de nós, é contribuir para que tudo permaneça como está. Eleitor tem o poder nas mãos e não sabe, é como os bois e as vacas, são fortes mas não sabem da força que tem.

Criminalizam a esquerda, mas se não fosse a esquerda “demoníaca” a lutar por direitos para os trabalhadores, e direitos de um modo geral para o povo brasileiro, alguém acha que a casa grande iria dar de mão beijada todos esses direitos, por mais que os tenham dado? Se o capitalismo brasileiro não tivesse o contraponto feito pela esquerda em anos e anos de luta, pagando muitas vezes com a própria vida, você acha que estaríamos em situação paradisíaca hoje?

Criminalizam os trabalhadores que fazem greve, como professores, funcionários públicos, etc., mesmo que estejam trabalhando sem receber, ou mesmo que estejam lutando por condições melhores de trabalho – para esses “criminosos” bala de borracha, bomba de efeito moral, spray de pimenta, e às vezes até tiro.

Criminalizam a pobreza, os negros e os índios; demonizam quotistas, os homossexuais, os candomblecistas e umbandistas – e o que é pior – em muitas das vezes por aqueles que não deveriam demonizar, criminalizar e discriminar absolutamente ninguém: os cristãos, cujos valores éticos primordiais são o acolhimento, o amor, a misericórdia, o perdão...

Entretanto... Como é então não ser criminoso ou demonizado aqui no Brasil?

Não ser criminoso ou demonizado no Brasil talvez seja não ser de esquerda, execrar o Estado e todos os políticos, chamar trabalhadores em greve de vagabundos (e aposentados também, como certo príncipe uma vez afirmou), ser contra as quotas nas universidades, ver na pobreza um defeito semelhante a um defeito físico que não pode e que não DEVE ter jamais cura, é ser cristão e odiar quem não é.

Com efeito, por todo o exposto acima, sou então um criminoso de alta periculosidade e extremamente satanizado.

Bem, se até Jesus foi acusado no Evangelho pelos fariseus de ter parte com belzebu por praticar sempre o bem e querer sempre o bem para todos, inclusive para os excluídos pela sociedade de sua época por serem leprosos, cegos, deficientes físicos, pobres, pagãos, etc. – então, porque justamente eu, reles mortal, também não seria.

terça-feira, 14 de junho de 2016

“ÀS VEZES O QUE É LINDO AOS OLHOS, PODE SER PODRE AO CORAÇÃO...” - trecho da canção Dois Gumes - da banda Uns e Outros

Higienizar a vida. Lavar a alma...

A limpeza que se espera é uma limpeza verdadeira, profunda. O banho que se espera é de humanidade.

Quando eu era criança, para mim era difícil tomar banho no inverno, pois mesmo sendo o banho quente eu sabia que quando terminasse eu sentiria muito frio. Então eu fazia uma higienização superficial: com as mãos molhadas humedecia os cabelos e o corpo, humedecia também o sabonete e botava um pouco do shampoo no ralo do box para fazer um pouco de espuma com os pés. E por fim não me esquecia de me secar levemente para não sujar a toalha. Pois, caso isso ocorresse, talvez eu tivesse que tomar banho de verdade, mas, desta vez, sob a supervisão de um adulto.

Pronto. Tudo para não sentir muito frio.

Lembrei-me disto depois de pensar na postagem abaixo que compartilhei.


E também após ler uma outra postagem sobre a situação dos moradores de rua da cidade de São Paulo, onde é relatado que os guardas municipais estão recolhendo os pertences mínimos dos pobres, entre os quais: cobertores, mantas, pedaços de papelão e tudo mais usado pelos irmãos sem-teto para se protegerem do frio que tem sido tão rigoroso com São Paulo nos últimos dias.
Leia a matéria aqui:
http://www.diariosp.com.br/mobile/noticia/detalhe/93017/gcm-tira-cobertas-de-moradores-de-rua-em-sao-paulo

Ora, se há problemas em os seres humanos moradores de rua não quererem ir para abrigos, se há qualquer outro tipo de problema para os mesmos preferirem ficar na rua, nada justifica lhes tomar os cobertores, papelões, mantas ou seja lá o que for que lhes proteja do frio.

Há suspeitas de que houve mortes de moradores de rua por hipotermia... Meu Deus...

Se somente a perspectiva de sentir um pouco de frio me fazia fingir tomar banho quente (não frio) só por medo de sentir um pouco de frio depois, que dirá uma pessoa que está morando na rua e que só possui os poucos panos que lhes restam na vida para dormir tendo como teto, quando muito, uma marquise ou papelões ou panos em um abrigo semelhante aos que eu fazia quando era criança para brincar de caverna.

Sim, acabo de fazer o que me foi ensinado fazer para não querer, para repugnar e para combater o sofrimento alheio: me colocar no lugar do outro. Não que eu esteja pondo em prática uma lição decorada, mas deixando pulsar o coração que a vida me deu e moldou.

Uma cidade higienizada assim permanece suja, porque tudo que é desumano é sujo. Eu fingia tomar banho e permanecia sujo. E o pior frio que se pode ter é o frio do coração. Sim, por vezes é inverno também em meu coração, não me excluo. Mas me é dada a chance sempre de reaquecê-lo. Na fotografia abaixo há um exemplo claro de um coração nenhum pouco frio, do coração que não abro mão de sempre querer para mim.


Leia sobre a matéria da imagem acima aqui:
http://www.plofnariz.com/2016/06/morador-de-rua-brasileiro-causa-comocao.html?m=1