Costumam receitar óleo de peroba para pessoas classificadas como “caras-de-pau”.
Com certeza essa expressão (cara-de-pau) é concedida a quem consegue, diante de situações tidas pela maioria como reprováveis, manter-se indolente, impassível, e continuar, na “caradura”, afirmando ou agindo de modo reprovável sem demonstrar nenhum tipo de constrangimento.
Episódios assim costumam escandalizar às pessoas, e então por isso muitas das vezes continuar a agir ou falar na “caradura” acaba sendo uma forma desesperada de quem estava agindo ilicitamente por “debaixo dos panos”, mas que por algum motivo foi descoberto.
Quando isso se generaliza e passa a ser regra, pode até ter seu lado bom porque as máscaras caem e facilmente se consegue saber quem é quem de verdade.
Por outro lado, se a indolência por parte de quem presencia isso tudo ou passa a saber disso tudo impera, o baile de máscaras pode até ser interrompido, mas o show de horrores se agrava.
Ontem (26/05/2015), ligando a TV e sintonizando na TV Câmara, quando votavam a questão do fim ou permanência do financiamento de empresas privadas para campanhas eleitorais, o que sem muito pensar deve terminar o mais rápido possível, porque toda empresa privada visa o lucro financeiro, e ao financiar a campanha de um candidato é claro que a empresa investidora quererá sua contrapartida financeira, e há um termo preciso para este jogo imundo: corrupção, o mais intrigante foi o show de horrores generalizado por parte dos que defendem a permanência deste sistema. Não havia sutileza nas falas, não falavam em metáforas, mas eram diretos, claros e objetivos.
Alguns exemplos:
“Se as empresas não financiarem as campanhas, haverá muito caixa dois” – admissão explícita de ele próprio fazer caixa dois se não houver mais esse tipo de financiamento, é isso?
“Aqui todo mundo gastou muita grana gente!” – o que todo mundo faz é então sempre lícito, não importando o que seja?
“O supremo é contra, então vamos mudar a constituição que aí o supremo não vai poder fazer nada!” – Tornar constitucional o toma-lá-dá-cá, é isso?
E por aí vai....
Mas não foi incorporada tal proposta à constituição, felizmente. Mais do que uma derrota de Cunha e companhia, foi uma vitória do povo brasileiro. E uma reforma política sem a participação popular não é reforma política. As ruas devem ser ouvidas, a sociedade toda deve ser ouvida, porque a política diz respeito a todos, e não só às casas legislativas e ao executivo e ao judiciário (sim nosso judiciário é político, não é e nem nunca foi técnico – não se enganem).
Aristóteles já dizia que o homem é um animal racional político e afirmou isto genericamente; não se referiu somente a um grupo ou a alguns grupos.
Segundo João Ubaldo Ribeiro, "se não gostamos do comportamento dos políticos e do funcionamento do sistema e não fazemos nada quanto aisso, estamos sendo políticos: estamos contribuindo para a perpetuação indesejável e inaceitável. Se queremos fazer alguma coisa para melhorar a situação, também estamos sendo políticos, pois a única via de ações possível, nesse caso é a Política".
Qual a sua opção política?
Quanto ao Cunha e sua turma, querem agora propor o financiamento de empresas privadas para os partidos, e não mais para candidatos, como se na prática isto não fosse funcionar da mesma forma.
Portanto devemos ter outro show de horrores em breve. E a pergunta que ficará será aseguinte:
“As empresas produtoras de óleo de peroba devem fornecer seu produto para os parlamentares ou para seus partidos?”
Um velho amigo meu, também extremamente "caradura", porque ao contar suas piadas permanecia sem dar um sorriso sequer, certamente me diria: “olha, meu caro, de uma forma ou de outra o resultado seria igualzinho, só que diferente...”
Texto escrito em maio/2015.