sábado, 30 de abril de 2016

EM MEIO À RINITE...

“Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu...”

O bom e velho Chico e suas brilhantes traduções dos sentimentos das pessoas. Das gentes...

Uma rinite alérgica brava me fez levantar da cama assim hoje. Como quem partiu e morreu... Mas sem dramas maiores. Sem tragédias gregas ou de qualquer outra nacionalidade. Apenas meu estado físico atual, que comigo irremediavelmente afeta também meu estado de espírito. Mas, repito, nada desesperador - esse estado não é de sítio nem de calamidade pública, muito menos de coma. É só até o Loratil fazer efeito, caso este antialérgico sirva para rinite, mas arrisquei um comprimidinho assim mesmo. Já o tomei antes e não me causou alergia...

Será que um antialérgico pode causar alergia?

Será que o amor pode gerar desamor? Não. Quem ama não mata – o jargão está corretíssimo.

O poder “endireita” a esquerda como diz Delfim Neto? Também não. Esquerda é esquerda e direita é direita, as gentes sim mudam de lado, e continuam sendo pessoas, isso não muda, os lados também não mudam, continuam sendo lados e pronto. Todavia, se os lados desunem, o ser pessoa reúne. Sou um romântico, eu seu... Para alguns inocente até... Mas não sou estúpido, entendi muito bem o que Delfim quis falar. Tranquilizem-se.

Amor e ódio de mãos dadas.

Esquerda e direita na mesma moeda.

Até que ponto as coisas se ligam ou são incompatíveis? Não sei tudo. Mas algumas são sim próximas e outras inconciliáveis conforme dizem os jargões.

Mas, de volta à rinite, eu sei que ela passa, que o ódio passa, embora dependa de quem o sinta... Mas o amor não, este é entranhado no (a) amante. É por isso que “Amor que acaba não foi amor”, como traduz brilhantemente o amor o também bom e velho Carlos Heitor Cony, um outro tradutor brilhante dos sentimentos das gentes.

Texto escrito em junho/2015.

LOBO COM PELE DE LOBO MESMO

No texto que publiquei esta semana intitulado “Igualzinho só que diferente” eu externava minha alegria acerca da derrota do Cunha que, mais que isso, era uma vitória de toda sociedade brasileira, pois seu projeto de institucionalização das doações (na verdade investimentos) para campanhas eleitorais por parte de empresas privadas havia sido derrotado.

Eu então falava dos argumentos dos defensores deste financiamento citando alguns exemplos e me indignava com a “cara-de-pau” de seus defensores. Eu dizia que não havia mais nada sutil, tudo era dito de forma direta e objetiva, daí os termos “cara-de-pau” e “caradura” que inclusive tive o trabalho em lhes dar uma definição. Não deixe de ler.

Todavia, Cunha virou o jogo no dia seguinte, às custas de chantagens feitas aos partidos chamados nanicos naturalmente ameaçando asfixiá-los, e fazendo também certamente todo tipo de negociatas e outras chantagens com outros parlamentares. Resultado: até mesmo o ecológico PV voltou atrás em seu voto, outros partidos menores e políticos que haviam votado contra e outros que se abstiveram mudaram seus votos para sim ao financiamento/investimento citado.

Cunha faz parte da bancada evangélica, e de evangélico notoriamente nada tem. Entre os interesses cristãos e os do capital que o sustenta e o enriquece ele fica sempre com a segunda opção. E mais uma vez o Evangelho realmente se cumpre, pois "Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará a um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro" - Mt 6,24.

E Cunha não faz sua opção às escondidas, muito ao contrário, verbaliza suas intenções sempre empresarias e nunca populares, pois ele afirmou publicamente, por exemplo, que seu modo de pensar é igual ao modo de pensar do empresariado brasileiro. Basta ver sua lei vitoriosa que trata da terceirização das atividades fins das empresas, etc..

Portanto, usando ainda temas evangélicos, Cunha é um lobo, e hoje é o lobo Alfa (nome dado ao lobo que lidera e comanda a alcateia), mas não é um lobo com pele de cordeiro, pois no congresso não é mais necessário ser assim – ele é um lobo com pele de lobo mesmo, tal qual sua alcateia.

O avô de uma amiga minha, também professora, lançou uma profecia por demais coerente e com muito fundamento, ao saber da virada de mesa vitoriosa articulada por Cunha.

“Eduardo Cunha e sua equipe nota 10 fará tanta besteira que vai fazer a cama do Lula, que ainda vai voltar sendo aclamado pelo povo aterrorizado. Eu vou rir. Não vou achar ruim não.”

Vejo este comentário como um vaticínio mas também como uma constatação lógica; é claro que o que eu preferiria de verdade é que o parlamento realmente nos representasse, mas...

Espero também que Cunha seja somente o Alfa e nada além disto, porque somente estando nesta posição os estragos produzidos por sua liderança diabolicamente competente são imensos. Falo isso porque se ele continuar a ser o Lobo Alfa e tiver a pretensão de ser de alguma forma o Alfa e o Ômega de nosso parlamento, somente uma nova encarnação do Verbo poderá dar jeito na coisa.

Não... Por favor não me digam que hoje ele já é o Alfa e Ômega de nosso congresso... Por favor não me digam isso...

Texto escrito em maio/2015.

IGUALZINHO, SÓ QUE DIFERENTE

Costumam receitar óleo de peroba para pessoas classificadas como “caras-de-pau”.

Com certeza essa expressão (cara-de-pau) é concedida a quem consegue, diante de situações tidas pela maioria como reprováveis, manter-se indolente, impassível, e continuar, na “caradura”, afirmando ou agindo de modo reprovável sem demonstrar nenhum tipo de constrangimento.

Episódios assim costumam escandalizar às pessoas, e então por isso muitas das vezes continuar a agir ou falar na “caradura” acaba sendo uma forma desesperada de quem estava agindo ilicitamente por “debaixo dos panos”, mas que por algum motivo foi descoberto.

Quando isso se generaliza e passa a ser regra, pode até ter seu lado bom porque as máscaras caem e facilmente se consegue saber quem é quem de verdade.

Por outro lado, se a indolência por parte de quem presencia isso tudo ou passa a saber disso tudo impera, o baile de máscaras pode até ser interrompido, mas o show de horrores se agrava.

Ontem (26/05/2015), ligando a TV e sintonizando na TV Câmara, quando votavam a questão do fim ou permanência do financiamento de empresas privadas para campanhas eleitorais, o que sem muito pensar deve terminar o mais rápido possível, porque toda empresa privada visa o lucro financeiro, e ao financiar a campanha de um candidato é claro que a empresa investidora quererá sua contrapartida financeira, e há um termo preciso para este jogo imundo: corrupção, o mais intrigante foi o show de horrores generalizado por parte dos que defendem a permanência deste sistema. Não havia sutileza nas falas, não falavam em metáforas, mas eram diretos, claros e objetivos.

Alguns exemplos:

“Se as empresas não financiarem as campanhas, haverá muito caixa dois” – admissão explícita de ele próprio fazer caixa dois se não houver mais esse tipo de financiamento, é isso?

“Aqui todo mundo gastou muita grana gente!” – o que todo mundo faz é então sempre lícito, não importando o que seja?

“O supremo é contra, então vamos mudar a constituição que aí o supremo não vai poder fazer nada!” – Tornar constitucional o toma-lá-dá-cá, é isso?

E por aí vai....

Mas não foi incorporada tal proposta à constituição, felizmente. Mais do que uma derrota de Cunha e companhia, foi uma vitória do povo brasileiro. E uma reforma política sem a participação popular não é reforma política. As ruas devem ser ouvidas, a sociedade toda deve ser ouvida, porque a política diz respeito a todos, e não só às casas legislativas e ao executivo e ao judiciário (sim nosso judiciário é político, não é e nem nunca foi técnico – não se enganem).

Aristóteles já dizia que o homem é um animal racional político e afirmou isto genericamente; não se referiu somente a um grupo ou a alguns grupos.

Segundo João Ubaldo Ribeiro, "se não gostamos do comportamento dos políticos e do funcionamento do sistema e não fazemos nada quanto aisso, estamos sendo políticos: estamos contribuindo para a perpetuação indesejável e inaceitável. Se queremos fazer alguma coisa para melhorar a situação, também estamos sendo políticos, pois a única via de ações possível, nesse caso é a Política".

Qual a sua opção política?

Quanto ao Cunha e sua turma, querem agora propor o financiamento de empresas privadas para os partidos, e não mais para candidatos, como se na prática isto não fosse funcionar da mesma forma.

Portanto devemos ter outro show de horrores em breve. E a pergunta que ficará será aseguinte:

“As empresas produtoras de óleo de peroba devem fornecer seu produto para os parlamentares ou para seus partidos?”

Um velho amigo meu, também extremamente "caradura", porque ao contar suas piadas permanecia sem dar um sorriso sequer, certamente me diria: “olha, meu caro, de uma forma ou de outra o resultado seria igualzinho, só que diferente...”

Texto escrito em maio/2015.

ESCOLHIDOS

Hoje percebo que sempre fui um homem extremamente pretensioso. Sempre pretendi muito várias coisas, o que é natural.

Ter a mulher da minha vida, por exemplo...

Mas ela ficou somente no campo da mera pretensão. Pois no final das contas foi ela que me escolheu, foi ela que me pretendeu e eu me deixei escolher e com ela me casei.

Nos anos oitenta passei a ter pretensões literárias no sentido de começar a ler livros, porque até então nem gibis eu tinha o hábito de ler. Mera pretensão... Acabei sendo tragado pelo mundo das letras e até livros escrevi.

Muito embora a vida sempre tenha me dado a impressão de me deixar escolher as coisas, na verdade muitíssimas das vezes o escolhido acabava sendo eu.

Os livros me escolheram. A mulher da minha vida me escolheu. Porque é assim mesmo: muitas coisas e pessoas e situações nos escolhem apesar de parecer o contrário.

Vida, morte, amor e livros – tudo isso nos escolhe. Tudo.

“Não sou eu quem me navega / Quem me navega é o mar”.

É... Talvez o grande segredo da vida (ou um de seus grandes segredos) é saber deixar-se escolher pelos corações e pelas marés. A vida e suas escolhas imperiosas...

E como também é certo que “Quem sabe faz a hora não espera acontecer”, essa atitude nem de longe é passiva, porque se deixar escolher é também questão de escolha: entre todas as ondas que me quiseram levar, como um bom timoneiro, fui eu que sempre escolhi as que me carregaram.

Essa é a dialética da vida, de escolher e ao mesmo tempo ser escolhido. Uma mesma moeda com suas duas faces, uma mesma pessoa que livremente se deixa prender, como bem nos diz o velho Camões. Como a vida sempre disse e o tempo todo continua a dizer.

Texto escrito em maio/2015.

AMOR À CAMISA

Os mais antigos que eu costumam dizer que nos tempos idos os jogadores de futebol jogavam por amor à camisa, o que significa dizer que, segundo eles, esses atletas de outrora tinham amor a seus clubes de origem, e que muito embora houvesse trocas de clubes, elas aconteciam em bem menor quantidade que hoje e sem prejuízo à fidelidade e ao amor ao time de origem do jogador.

Não sei até que ponto esta afirmação condiz fielmente com as realidades passada e presente de nosso futebol, mas, de um modo geral, concordo com ela.

Nos dias 15/03 e 12/04 aconteceram manifestações por todo país que, embora hoje especialistas apartidários contestem a quantidade de manifestantes oficialmente divulgada, foi legítima, porque todo desejo popular em uma democracia é legítimo, muito embora uma outra parcela que clamava por coisas bem diferentes não tenha sido tão veiculada pela mídia como esta foi – mas não é disso que quero falar.

As camisas usadas nas manifestações daqueles dois domingos tinham uma cor bem definida: amarela. Talvez sejam as camisas que encalharam por ocasião da copa de 2014, e que enfim encontraram a saída desejada pelos comerciantes, segundo afirmações de alguns.

Uma imensa seleção canarinho nas ruas de todo país pedindo, além da queda da presidenta Dilma, seu mote central, a intervenção militar e o fim da corrupção – talvez tenham outras reivindicações, peço perdão pois se tiveram eu sinceramente não sei quais foram.

Houve muita reportagem de campo aqui e ali, não só feitas por uma emissora, mas por programas diversos de outras. E nestas ouvi discursos que sinceramente contradiziam a cor da camisa vestida com enorme orgulho nesta manifestação. Exemplos:

“Meus filhos estão morando nos Estados Unidos, e logo nós iremos morar lá também para nunca mais voltar.”

“Está tudo certo para irmos morar em Miami. No próximo ano iremos para lá de vez”.

E quando determinado transeunte incauto apareceu no horário de uma dessas manifestações vestido com camisa de outra cor, mais precisamente vermelha, o mandaram para Venezuela e, principalmente, para Cuba.

Amor estranho amor à camisa manifestado por esses brasileiros como eu sou brasileiro. Na cabeça dessas pessoas o Brasil não é mais lugar para quem veste amarelo, vermelho, e talvez o rosa (esses deveriam ir para onde? Para São Francisco, EUA, talvez?).

Ah! Acho que compreendi! O Brasil é terra para os descamisados! Vista uma camisa de determinada cor e o Brasil não é mais lugar para você! Mesmo que sua cor seja o amarelo de nossa seleção!

Talvez isto possa explicar, quem sabe, o porquê de a nossa seleção canarinho ter tão poucos jogadores que atuem aqui, na pátria para os descamisados. Mas... Perdoem-me... Essa colocação foi pura maldade deste também incauto escrevinhador... Pois por uma boa oportunidade de trabalho ou em caso de extrema necessidade eu também iria para o estrangeiro, mas voltaria assim que possível, posso garantir.

Sairia também para fazer turismo ou para aperfeiçoar meus estudos, sem problemas, mas, repito, retornaria sempre e tão logo possível fosse, porque aqui é a minha pátria, minha casa. Continuaria lutando aqui por uma casa melhor como todo família brasileira luta por sua casa, por seu lar.

E para que esta minha opção fosse condizente com o simbolismo que a cor de minha roupa deveria indicar, eu então tiraria a camisa e manifestar-me-ia, como diria minha avó, nu da cintura pra cima.

Texto escrito em maio/2015.

O DONO DA BOLA

Lá no Estácio, onde parte de minha infância e toda minha adolescência foi vivida, havia três maneiras de alguém não ficar fora das inúmeras peladas que lá se disputavam amiúde:

1) Ser bom de bola.
2) Estar faltando alguém para completar um dos times.
3) Ser o dono da bola.

Comumente eu participava das peladas por causa das opções dois e três. Na verdade mais por causa da opção dois, pois nesta época não me recordo de ser proprietário de uma bola, nem “dente-de-leite” nem “corinho”.

Pois bem, quero falar agora sob a ótica do dono da bola.

De que vale ser o dono da bola e não jogar bola? Todo dono da bola queria jogar bola, e por ser o dono dela, isso garantiria que ele não ficaria de fora, mesmo ele sendo ruim de bola, um “pereba”, um “perna-de-pau”, etc..

É claro que, embora muito raramente, certos donos da bola sentiam um certo prazer em acabar com o prazer de todos repentinamente. E aí, no meio da pelada, quando o ápice da brincadeira estava em curso, esse desmancha-prazeres pegava a bola com aquele olhar e sorrisos sádicos e ia embora. Era muito xingado, é claro, de todos os nomes de baixo calão possíveis, inclusive sua mãe não deixava de ser alvo privilegiado dos impropérios de todos, se tivesse irmã sobrava também para ela...

Bem, a questão é: será que na vida adulta pode haver também episódios análogos a este? Será que tamanho regozijo com o prazer interrompido dos outros pode gerar tamanho prazer em algum coração já supostamente amadurecido pela idade e pela vida?

Sim. Na vida cotidiana há aqueles que querem ser exclusivos donos da bola. Um pouco diferente do exemplo dado acima, porque falo de alguns que têm a bola e têm o poder de jogar sozinhos e sofrem com a ideia de que algum "penetra indesejado" entre no jogo que julgam ser somente deles.

Na verdade estou escrevendo tudo isto por causa de uma reportagem antiga que li vasculhando coisas velhas, do ano de 2012, que traz uma declaração de uma colunista socialite, chamada Danuza Leão, que indagou o seguinte:

"Ir a Nova York já teve sua graça, mas, agora, o porteiro do prédio também pode ir, então qual a graça?"

Sim, ainda existem donos da bola como aquele tipo de dono de bola do Estácio de minha adolescência. E como Danuza Leão de minha idade adulta, para quem somente privilégios não interessa, a não ser se vierem acompanhados de exclusividade plena.

Texto escrito em maio/2015.

MENTIRAS SINCERAS

“SORRISO BOM SÓ DE DENTRO
NINGUÉM É BOM SENDO O QUE NÃO É
EU PARA SER FELIZ COM MENTIRA
MELHOR QUE EU CHORE COM FÉ”

São versos de Taiguara, da canção Piano e Viola, que me falam muito. Mas outros versos, de Mário Lago, da música Nada Além, tão contrários aos do Taiguara, também me dizem muito:

“EU NÃO QUERO E NEM PEÇO
PARA O MEU CORAÇÃO
NADA ALÉM DE UMA LINDA ILUSÃO”

Sim, a verdade está em primeiro lugar. Mas é bem verdade também que o coração precisa disparar vez e outra, que a emoção necessita explodir vez e outra em choro ou risos, ou nos dois.

Já dei rosas para minha esposa dizendo: “Rosas para uma flor”. É piegas. Eu sei. É mentira. Eu sei. Mulheres não são flores. Nem o contrário.

Vi um filme em oitenta e pouco, se chamava Blade Runner, nada daquilo era verdade. Mas fazia tanto sentido... Um androide, que também não existe, aos poucos tendo sentimentos humanos: compaixão, piedade... Tudo mentira. Mas fazia todo sentido.

Um autor de novelas, uma vez, não me lembro quem, disse que para escrever ficção o importante era a trama fazer sentido. Porque somente a verdade não precisava fazer sentido. A verdade é verdade e pronto.

Realmente a verdade é verdade e pronto, desde morrer por amor, pois como diz Clayton Craveiro, “Só quem morre de amor na verdade sabe morrer” (opa... essa verdade faz sentido sim).

Mas... desde matar em nome de Deus; usar a força não para proteger, mas para oprimir; maltratar a terra, na verdade nossa única morada... Tudo isso não faz sentido. Mas acontece de verdade e pronto, muito embora os motivos para que tudo isso aconteça sejam todos eles destrutivamente mentirosos, idolátricos, e, portanto, esse tipo de mentira decididamente nunca presta.

Assim, fico então com Taiguara e Mário Lago – porque chorar com fé realmente é melhor do que sorrir estando triste, e é por isso mesmo que rir ou chorar de verdade com a flor que não é flor e com o sentimento do androide inexistente é também extremamente verdadeiro.

E fico também com Cazuza, com toda certeza, pois “mentiras sinceras me interessam/ me interessam...”.

Texto escrito em janeiro/2015.

MEDIDA CERTA SEM "PERSONAL TRAINER"

Se eu soubesse o ponto exato e a medida certa.
Se entre tantas opções minhas avaliações me proporcionassem sempre optar pela melhor possibilidade.
Se eu conseguisse antever a porta que realmente fosse a da esperança.
Se eu soubesse uma forma de rolar os dados para darem sempre os números que escolhi....
Mas quase nunca sei...

Entretanto, para ser sincero, o que eu queria mesmo era saber a palavra certa.
E além disso o modo preciso de dizê-la.
E além disso o momento preciso de torná-la som para a outra pessoa ouvir.
Ou mesmo o momento exato de não dizê-la, para torná-la ainda mais audível.
Eu já me daria por satisfeito só com isso.
Mas, como digo na canção que fiz para minha esposa Alice:

“Se fosse a gosto, seria exato tudo / Mas fica azedo, amargo ou salgado / Ou fica doce, demais...”

Esse sou eu. Às vezes atrasado, às vezes adiantado. Demais...

Mas... Espera aí, às vezes sim pontual, dentro do tempo que me coube chegar, dentro do tempo que me coube conhecer, compreender. Dizer e calar. Sim, às vezes deveras pontual!

É... Hoje estou melancólico...

E foi exatamente em um dia de melancolia como hoje, que escrevi, depois de ter dito o que não deveria ter dito, como não deveria ter dito, etc., a letra da música que mencionei acima e que vou compartilhar com vocês na íntegra...


MAIS OU MENOS BLUES

Eu fiz de um tudo
Mas acho que ainda faltou algo
Ou botei algo demais...

Qual a medida certa do amor?
Qual a medida certa do amor?

Se fosse a gosto, seria exato tudo
Mas fica amargo, azedo ou salgado
Ou fica doce demais...

Qual a medida certa do amor?
Qual a medida certa do amor?

Foi o que eu disse
Ou foi o que eu não disse
Foi mera tolice
Ou algo importante demais
Que eu disse a Alice
Agora vou voltar atrás
Que eu disse a Alice
Por isso vou voltar atrás...



Esta música está disponível no site www.aniballobao.wix.com/aniballobao na opção músicas do menu,
a capela, somente eu e o gravador do telefone celular.


Texto escrito em 12/2014

SERÁ O BENEDITO!

Dizia meu avô que a única coisa que ninguém pode nos tirar é o saber.

Eu entendo o velho Benedito....

Somente o curso primário e em cartas ministrava-me verdadeiras aulas de ortografia (digitalizei uma dessas cartas, é só clicar na imagem ao lado).

Um apaixonado pelo seu estado natal, o Maranhão, e sua capital, São Luiz, que, segundo ele, já foi chamada de “Atenas brasileira”, tamanha a quantidade de literatos que a capital já produziu em certa época.

Dizia o Benedito ter chegado a ler trezentas páginas por dia, “quando eu era vagabundo”, eu explico: quando ainda não lhe era exigido trabalhar pelo pão de cada dia.

É... O velho Bené tinha razão – conhecimento ninguém tira.

Podem até se negar a oferecê-lo. Mas retirá-lo, nunca. Podem até dele fazer mau uso. Mas apagá-lo, nunca.

Imagino o Bené jovem hoje. Bastar-lhe-ia um PC, um notebook, um tablet, ou mesmo um smartphone – conhecimento sem fio, sem folhas, sem fronteiras, dedos sem saliva para passar as páginas.

O que o Bené procuraria tanto conhecer via tanta tecnologia? Quais autores ele leria? Qual ou quais gêneros ele preferiria? São só divagações... Eu sei... É quase como imaginar Pelé na seleção de oitenta e dois (para a mim a melhor que vi jogar, mesmo tendo assistido a de setenta em vídeos – que me perdoem os setentistas...). Mas são apenas divagações, nada além disso.

Na verdade é a saudade que está batendo – de ouvi-lo afirmar sobre a perpétua posse do conhecimento, o que não o impedia de partilhá-lo comigo, ou com quem quer que lhe pedisse. “O que significa essa palavra?” “Procure no dicionário, não sou eterno, mas significa isso...” Meu avô, meu google.

Hoje eu tento passar conhecimento, na verdade tento estimular o desejo de conhecer nos outros, na certeza de que quanto mais leciono, mais também aprendo. Não tenho neto (nem filho, infelizmente) para me procurar em meu quarto querendo saber o significado de alguma palavra difícil e desconhecida, como eu fazia com o Bené. Tenho uma sala de aula, na verdade várias delas, para agora eu afirmar que o conhecimento ninguém tira.

Sim, o saber que eu passo e ao mesmo tempo ganho daqueles que me chamam professor.



Obs.: Texto escrito por em 12/2014.