Hoje percebo que sempre fui um homem extremamente pretensioso. Sempre pretendi muito várias coisas, o que é natural.
Ter a mulher da minha vida, por exemplo...
Mas ela ficou somente no campo da mera pretensão. Pois no final das contas foi ela que me escolheu, foi ela que me pretendeu e eu me deixei escolher e com ela me casei.
Nos anos oitenta passei a ter pretensões literárias no sentido de começar a ler livros, porque até então nem gibis eu tinha o hábito de ler. Mera pretensão... Acabei sendo tragado pelo mundo das letras e até livros escrevi.
Muito embora a vida sempre tenha me dado a impressão de me deixar escolher as coisas, na verdade muitíssimas das vezes o escolhido acabava sendo eu.
Os livros me escolheram. A mulher da minha vida me escolheu. Porque é assim mesmo: muitas coisas e pessoas e situações nos escolhem apesar de parecer o contrário.
Vida, morte, amor e livros – tudo isso nos escolhe. Tudo.
“Não sou eu quem me navega / Quem me navega é o mar”.
É... Talvez o grande segredo da vida (ou um de seus grandes segredos) é saber deixar-se escolher pelos corações e pelas marés. A vida e suas escolhas imperiosas...
E como também é certo que “Quem sabe faz a hora não espera acontecer”, essa atitude nem de longe é passiva, porque se deixar escolher é também questão de escolha: entre todas as ondas que me quiseram levar, como um bom timoneiro, fui eu que sempre escolhi as que me carregaram.
Essa é a dialética da vida, de escolher e ao mesmo tempo ser escolhido. Uma mesma moeda com suas duas faces, uma mesma pessoa que livremente se deixa prender, como bem nos diz o velho Camões. Como a vida sempre disse e o tempo todo continua a dizer.
Texto escrito em maio/2015.

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