Os mais antigos que eu costumam dizer que nos tempos idos os jogadores de futebol jogavam por amor à camisa, o que significa dizer que, segundo eles, esses atletas de outrora tinham amor a seus clubes de origem, e que muito embora houvesse trocas de clubes, elas aconteciam em bem menor quantidade que hoje e sem prejuízo à fidelidade e ao amor ao time de origem do jogador.
Não sei até que ponto esta afirmação condiz fielmente com as realidades passada e presente de nosso futebol, mas, de um modo geral, concordo com ela.
Nos dias 15/03 e 12/04 aconteceram manifestações por todo país que, embora hoje especialistas apartidários contestem a quantidade de manifestantes oficialmente divulgada, foi legítima, porque todo desejo popular em uma democracia é legítimo, muito embora uma outra parcela que clamava por coisas bem diferentes não tenha sido tão veiculada pela mídia como esta foi – mas não é disso que quero falar.
As camisas usadas nas manifestações daqueles dois domingos tinham uma cor bem definida: amarela. Talvez sejam as camisas que encalharam por ocasião da copa de 2014, e que enfim encontraram a saída desejada pelos comerciantes, segundo afirmações de alguns.
Uma imensa seleção canarinho nas ruas de todo país pedindo, além da queda da presidenta Dilma, seu mote central, a intervenção militar e o fim da corrupção – talvez tenham outras reivindicações, peço perdão pois se tiveram eu sinceramente não sei quais foram.
Houve muita reportagem de campo aqui e ali, não só feitas por uma emissora, mas por programas diversos de outras. E nestas ouvi discursos que sinceramente contradiziam a cor da camisa vestida com enorme orgulho nesta manifestação. Exemplos:
“Meus filhos estão morando nos Estados Unidos, e logo nós iremos morar lá também para nunca mais voltar.”
“Está tudo certo para irmos morar em Miami. No próximo ano iremos para lá de vez”.
E quando determinado transeunte incauto apareceu no horário de uma dessas manifestações vestido com camisa de outra cor, mais precisamente vermelha, o mandaram para Venezuela e, principalmente, para Cuba.
Amor estranho amor à camisa manifestado por esses brasileiros como eu sou brasileiro. Na cabeça dessas pessoas o Brasil não é mais lugar para quem veste amarelo, vermelho, e talvez o rosa (esses deveriam ir para onde? Para São Francisco, EUA, talvez?).
Ah! Acho que compreendi! O Brasil é terra para os descamisados! Vista uma camisa de determinada cor e o Brasil não é mais lugar para você! Mesmo que sua cor seja o amarelo de nossa seleção!
Talvez isto possa explicar, quem sabe, o porquê de a nossa seleção canarinho ter tão poucos jogadores que atuem aqui, na pátria para os descamisados. Mas... Perdoem-me... Essa colocação foi pura maldade deste também incauto escrevinhador... Pois por uma boa oportunidade de trabalho ou em caso de extrema necessidade eu também iria para o estrangeiro, mas voltaria assim que possível, posso garantir.
Sairia também para fazer turismo ou para aperfeiçoar meus estudos, sem problemas, mas, repito, retornaria sempre e tão logo possível fosse, porque aqui é a minha pátria, minha casa. Continuaria lutando aqui por uma casa melhor como todo família brasileira luta por sua casa, por seu lar.
E para que esta minha opção fosse condizente com o simbolismo que a cor de minha roupa deveria indicar, eu então tiraria a camisa e manifestar-me-ia, como diria minha avó, nu da cintura pra cima.
Texto escrito em maio/2015.

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