Lá no Estácio, onde parte de minha infância e toda minha adolescência foi vivida, havia três maneiras de alguém não ficar fora das inúmeras peladas que lá se disputavam amiúde:
1) Ser bom de bola.
2) Estar faltando alguém para completar um dos times.
3) Ser o dono da bola.
Comumente eu participava das peladas por causa das opções dois e três. Na verdade mais por causa da opção dois, pois nesta época não me recordo de ser proprietário de uma bola, nem “dente-de-leite” nem “corinho”.
Pois bem, quero falar agora sob a ótica do dono da bola.
De que vale ser o dono da bola e não jogar bola? Todo dono da bola queria jogar bola, e por ser o dono dela, isso garantiria que ele não ficaria de fora, mesmo ele sendo ruim de bola, um “pereba”, um “perna-de-pau”, etc..
É claro que, embora muito raramente, certos donos da bola sentiam um certo prazer em acabar com o prazer de todos repentinamente. E aí, no meio da pelada, quando o ápice da brincadeira estava em curso, esse desmancha-prazeres pegava a bola com aquele olhar e sorrisos sádicos e ia embora. Era muito xingado, é claro, de todos os nomes de baixo calão possíveis, inclusive sua mãe não deixava de ser alvo privilegiado dos impropérios de todos, se tivesse irmã sobrava também para ela...
Bem, a questão é: será que na vida adulta pode haver também episódios análogos a este? Será que tamanho regozijo com o prazer interrompido dos outros pode gerar tamanho prazer em algum coração já supostamente amadurecido pela idade e pela vida?
Sim. Na vida cotidiana há aqueles que querem ser exclusivos donos da bola. Um pouco diferente do exemplo dado acima, porque falo de alguns que têm a bola e têm o poder de jogar sozinhos e sofrem com a ideia de que algum "penetra indesejado" entre no jogo que julgam ser somente deles.
Na verdade estou escrevendo tudo isto por causa de uma reportagem antiga que li vasculhando coisas velhas, do ano de 2012, que traz uma declaração de uma colunista socialite, chamada Danuza Leão, que indagou o seguinte:
"Ir a Nova York já teve sua graça, mas, agora, o porteiro do prédio também pode ir, então qual a graça?"
Sim, ainda existem donos da bola como aquele tipo de dono de bola do Estácio de minha adolescência. E como Danuza Leão de minha idade adulta, para quem somente privilégios não interessa, a não ser se vierem acompanhados de exclusividade plena.
Texto escrito em maio/2015.

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