sábado, 30 de abril de 2016

MENTIRAS SINCERAS

“SORRISO BOM SÓ DE DENTRO
NINGUÉM É BOM SENDO O QUE NÃO É
EU PARA SER FELIZ COM MENTIRA
MELHOR QUE EU CHORE COM FÉ”

São versos de Taiguara, da canção Piano e Viola, que me falam muito. Mas outros versos, de Mário Lago, da música Nada Além, tão contrários aos do Taiguara, também me dizem muito:

“EU NÃO QUERO E NEM PEÇO
PARA O MEU CORAÇÃO
NADA ALÉM DE UMA LINDA ILUSÃO”

Sim, a verdade está em primeiro lugar. Mas é bem verdade também que o coração precisa disparar vez e outra, que a emoção necessita explodir vez e outra em choro ou risos, ou nos dois.

Já dei rosas para minha esposa dizendo: “Rosas para uma flor”. É piegas. Eu sei. É mentira. Eu sei. Mulheres não são flores. Nem o contrário.

Vi um filme em oitenta e pouco, se chamava Blade Runner, nada daquilo era verdade. Mas fazia tanto sentido... Um androide, que também não existe, aos poucos tendo sentimentos humanos: compaixão, piedade... Tudo mentira. Mas fazia todo sentido.

Um autor de novelas, uma vez, não me lembro quem, disse que para escrever ficção o importante era a trama fazer sentido. Porque somente a verdade não precisava fazer sentido. A verdade é verdade e pronto.

Realmente a verdade é verdade e pronto, desde morrer por amor, pois como diz Clayton Craveiro, “Só quem morre de amor na verdade sabe morrer” (opa... essa verdade faz sentido sim).

Mas... desde matar em nome de Deus; usar a força não para proteger, mas para oprimir; maltratar a terra, na verdade nossa única morada... Tudo isso não faz sentido. Mas acontece de verdade e pronto, muito embora os motivos para que tudo isso aconteça sejam todos eles destrutivamente mentirosos, idolátricos, e, portanto, esse tipo de mentira decididamente nunca presta.

Assim, fico então com Taiguara e Mário Lago – porque chorar com fé realmente é melhor do que sorrir estando triste, e é por isso mesmo que rir ou chorar de verdade com a flor que não é flor e com o sentimento do androide inexistente é também extremamente verdadeiro.

E fico também com Cazuza, com toda certeza, pois “mentiras sinceras me interessam/ me interessam...”.

Texto escrito em janeiro/2015.

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