quinta-feira, 14 de julho de 2016

PRAGMATISMO OU IDEALISMO?

O mundo é dos pragmáticos? O mundo é das metas? Dos objetivos?

Sim, é verdade que o mundo não para.

A ciência não para de afirmar e de nos mostrar isto.

O big-bang afirma que o universo está em constante expansão.

Cazuza canta que “o tempo não para”.

O pragmatismo e o movimento incessante em nossas vidas diárias.

"Time is money?" "Just money?"

Não, nosso pragmatismo não pode ser comparado ao de um felino de grande porte que corre atrás de sua presa e não cessa até capturá-la. Definitivamente não.

Metas humanas não podem passar por cima de pessoas, porque sempre que isto acontece a meta desumaniza e o homem fica mesmo semelhante a um felino de grande porte atrás de uma presa.

O mundo não vai parar se eu não conseguir alcançar minha meta, o mundo não vai acabar. Vai continuar, continuar, continuar... Afinal, o tempo não para!

Tenho minhas metas, conquistei algumas. Outras não. Mas não me desumanizei - pelo contrário: minhas metas incluíam pessoas. Não eram inclusões utilitárias, era soma, era grupo aumentado.

Uma vez me disseram: “ideologia não enche barriga”.

Sou professor, de Filosofia, e minha barriga encho com isto.

Sou teólogo católico e minha barriga não encho com isto. Mas outras coisas em mim necessitam encher, sob pena de ter a barriga cheia e a mente vazia. E coração vazio.

Mesmo no tempo das vacas magras continuei idealista – sou o que sou.

Precisamos voltar a ter ideais. A política necessita urgentemente de ideais. Só assim o povo poderá fazer parte dos diversos orçamentos, do plano de país que se projeta.

O pragmatismo apartado de um ideal é como um corpo sem alma. É desumano. É lei pela lei e não para as pessoas. É felino na caça.

E qual o remédio para voltar a ter ideais?

Talvez seja olhar para quem se é realmente, mas em relação aos outros, jamais eliminando os outros. O remédio é pessoal e interpessoal também. Afinal o ser humano é assim e só se realiza assim.

É como o casal pragmatizado pela vida que não para nunca, mas que, em um dado momento, resolve olhar o álbum de fotografias... E veem os primeiros tempos de sua vida juntos, e se lembram do primeiro encontro, do primeiro beijo, da primeira promessa de amor eterno (eterno e feliz).

É esse o ideal: eterno e feliz. Só eterno não basta.

Mas falo de uma felicidade humana, é bom que se diga, que também tem choro, além de sorrisos. Não é de conto de fadas que falo. Nisto sou assaz pragmático.

Falta ouvir a palavra povo no senado e na câmara. Mas ouvir a palavra povo e ver brilho nos olhos de quem fala. Brilho verdadeiro. Precisamos voltar a ter ideais – e não somente ideias. Metas sem ideais é igual corpo sem alma. Igualzinho.

E termino com uma declaração feita pelo saudoso Darcy Ribeiro, que nos diz que vale à pena seguir ideais, e que não abrir mão de segui-los é sempre vitória - mesmo quando não se consegue cumpri-los:

Fracassei em tudo o que tentei na vida.
Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.
Tentei salvar os índios, não consegui.
Tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
Mas os fracassos são minhas vitórias.
Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.

Darcy Ribeiro


sexta-feira, 8 de julho de 2016

HOJE - 09/07/2016 - 5 ANOS CASADO COM ALICE

Confesso que, além da maravilhosa nostalgia, a cerimônia do meu sacramento do matrimônio causa-me certa frustração até hoje...

Eu explico.

Foi uma noite mágica, uma madrugada mágica. Alice era enfim a minha esposa – a quem diante do altar do Senhor prometi ser fiel na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza...

Todavia estava tudo combinado para eu cantar uma determina canção assim que ela despontasse ao lado de seu pai para ser dali em diante a minha esposa.

Dias antes mesmo daquele momento, porém, eu já havia desistido de cantar – pois sabia que, manteiga derretida que sou, eu me emocionaria e a voz faltaria.

A canção é um convite acompanhado de promessas. O nome da canção é Dia Branco, de Geraldo Azevedo.

O convite: “Se você vier, pro que der e vier comigo...”

A promessa: “Eu te prometo o sol, se hoje o sol sair; ou a chuva, se a chuva cair...”

O sol saiu porque ela aceitou o convite, a chuva caiu porque ela aceitou o convite. É por isso que se fizer sol é festa, e se chover também...

O vestido longo dela foi branco, o dia foi branco, porque ela aceitou vir comigo, ela tem aceitado o convite diário que faço para ela vir comigo...

Só peço perdão pelo fato de nem todo dia eu conseguir demonstrar e realizar “esse tanto, esse canto de amor”.

Mas sem você não dá para eu poder ao menos tentar fazer isso tudo...

Por isso continuo a lhe fazer o mesmo convite de cinco anos atrás, o mesmo, Alice, minha esposa, meu amor, porque:

“Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar
Nesse dia branco
Se branco ele for
Esse canto
Esse tão grande amor
Grande amor

Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Comigo
Comigo, comigo”

Deixo aqui o link para quem quiser ouvir a canção sublime que não consegui cantar aos pés do altar para receber minha esposa para vir comigo, comigo, comigo para sempre...

Muito embora ela tenha aceitado vir comigo mesmo assim...

https://www.vagalume.com.br/geraldo-azevedo/dia-branco.html

domingo, 3 de julho de 2016

A JUSTIÇA PARA A SOCIEDADE – E NÃO O CONTRÁRIO

Em meus estudos de ética na faculdade de Filosofia, lembro-me que foram abordadas duas linhas de pensamento ético, uma era a teleologia, e a outra a deontologia.

No estudo da ética teleológica foi abordado bastante o pensamento aristotélico, para quem o agir ético deve ser consequencialista, isto é, para que a ação possa ser boa, a mesma deve ser medida pelas suas consequências – assim, se a consequência for boa, aí sim, a ação pode ser considerada boa realmente.

No estudo da ética deontológica o autor abordado foi Kant, para quem a ação boa é um fim em si mesma, posto que em seus imperativos categóricos o sujeito deve tomar decisões tais ao ponto de suas ações serem boas não só para o sujeito que está tomando a decisão de agir, mas que sejam universalmente boas, em outras palavras, que as ações sejam boas para todos as pessoas, em todos os lugares, em todos os tempos. É uma ética do dever, cuja medida de sua bondade está concentrada na ação.

Fiz uma pergunta para uma determinada advogada que conheço:

“Na faculdade de Direito, você estudou teleologia, pelo menos passou superficialmente por esse estudo?”
Ela respondeu: “Não”.

Tornei a perguntar: “
E deontologia, você estudou?”
Ela respondeu: “Sim”.

Pedi que ela perguntasse a outros advogados e ela disse que todos responderam a mesma coisa que ela havia me respondido, ou seja, que só se lembravam de terem estudado deontologia, que até desconheciam o termo teleologia.

Pois bem, em minha visão de leigo em direito, mas atento às diversas questões como suponho que deva ser alguém que se propôs a estudar Filosofia e seguir livremente o que estudou, pus-me a ligar esta pequena pesquisa que fiz junto a alguns advogados com certas realidades que ocorrem hoje em nosso país. Estou me referindo especificamente à operação Lava Jato e suas consequências para a sociedade brasileira como um todo. Vamos lá.

O juiz de primeira instância Sérgio Moro afirmou que a Lava Jato não tem consequências na economia do país. O ministro do STF Celso de Mello idem. Mas, será que estão falando com convicção? Ou será que estão falando para a mídia, para seus fãs, ou coisa do gênero?

Ora, posso estar errado, mas pela resposta que obtive à pergunta que fiz e pedi para fazer aos advogados que mencionei acima, suponho que, mesmo que esses dois juristas saibam dos efeitos nefastos que a Lava Jato está gerando para a economia brasileira em virtude da maneira como a operação está sendo conduzida, sem que haja apreço pelas consequências à economia do país, estagnando assim toda uma cadeia produtiva e consequentemente sendo o carro-chefe do aumento do índice do desemprego, que, aliás, em 2014 havia alcançado o pleno emprego (índice baixíssimo de desemprego, abaixo de 5%), ainda assim, mesmo no caso de saberem de tudo isso e mesmo assim irem para os microfones negarem isso tudo, creio que possam até pensar estarem fazendo certo devido a um vício de origem, educacional.

Se nossos juristas tiveram que passar por uma faculdade de Direito e desde lá dão tanto valor a Deontologia e pouco à Teleologia, a tendência natural é que desde sempre eles tenham visto, e praticado e aprendido que a lei deve ser cumprida como um bem em si mesma, que nada mais importa. É como um engenheiro civil que quer realizar o seu grande projeto, mesmo que seja em área de preservação ambiental – o que importa é o projeto.

A moral teleológica trata a lei com vigor, mas se preocupa com a melhor maneira de cumpri-la. No caso da Lava Jato, o acordo de leniência com as empresas envolvidas seria a melhor saída, porque empresas não cometem crimes, e sim as pessoas que estão na empresa. Fazendo o acordo de leniência os culpados não deixam de ser investigados e exemplarmente punidos, muito pelo contrário, pois a empresa é obrigada a contribuir com as investigações, a devolver o dinheiro desviado, e a empresa não interrompe sua produção e consequentemente o desemprego não é fomentado. Como ocorreu nos EUA, onde houve punição e também retorno de muito dinheiro ao erário público. Creio que só agora acordos de leniência começam a ser celebrados no Brasil, embora desde o início de 2015 isto estivesse sido aventado – mas certamente isto não estava nos planos que claramente visavam desgastar o governo ao máximo, sangrá-lo até a morte – porque no final tudo de ruim é na conta do governo que cai.

Por uma justiça menos deontológica e mais consequencialista, mais republicana. Não a justiça feita para inflar egos e interesses escusos de toda sorte. É para o bem da nação e somente para o seu bem que a justiça deve existir.

Texto escrito no final de março de 2015.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

A TSUNAMI DA CRIMINALIZAÇÃO E DA DEMONIZAÇÃO

É difícil falar de algo hoje que não seja de antemão criminalizado ou demonizado aqui no Brasil.

Demonizam o Estado e a classe política.

Ora, o Estado é formado pelos cidadãos e por suas diversas instituições – o Estado, quando se trata de um país tão desigual como o nosso, devido a concentração de renda tão imensamente grande como é a nossa, é quase que a única defesa dos mais pobres, por vezes a única mesmo, em relação a assistência que esses possam ter, mesmo que ainda precária, nos âmbitos da educação, da saúde, entre tantos outros âmbitos de tanta vulnerabilidade para os mais empobrecidos do Brasil, que sem este mínimo de assistência estariam em situação ainda mais difícil. A luta deve ser não para demonizar os programas de assistência pública, mas para que melhorem cada vez mais.

Ora, a demonização da classe política é um tiro no pé que o status quo conseguiu incutir nos corações e nas mentes da esmagadora maioria do povo brasileiro, e isto é o que, na verdade, faz com que cada vez mais maus políticos tomem o poder sempre. Sim, porque nossa cidade será governada por um político, nossos Estados e a União também, nossas câmaras municipais, estaduais, federais e o Senado também. Não ligar para a política, e só tê-la como meio de conseguir de um político benefício para si e seus familiares, ou achar que o que rouba menos é o melhor, ou só ligar para política em época de eleição porque é obrigatório votar, tudo isso é o que os maus políticos querem de nós, é contribuir para que tudo permaneça como está. Eleitor tem o poder nas mãos e não sabe, é como os bois e as vacas, são fortes mas não sabem da força que tem.

Criminalizam a esquerda, mas se não fosse a esquerda “demoníaca” a lutar por direitos para os trabalhadores, e direitos de um modo geral para o povo brasileiro, alguém acha que a casa grande iria dar de mão beijada todos esses direitos, por mais que os tenham dado? Se o capitalismo brasileiro não tivesse o contraponto feito pela esquerda em anos e anos de luta, pagando muitas vezes com a própria vida, você acha que estaríamos em situação paradisíaca hoje?

Criminalizam os trabalhadores que fazem greve, como professores, funcionários públicos, etc., mesmo que estejam trabalhando sem receber, ou mesmo que estejam lutando por condições melhores de trabalho – para esses “criminosos” bala de borracha, bomba de efeito moral, spray de pimenta, e às vezes até tiro.

Criminalizam a pobreza, os negros e os índios; demonizam quotistas, os homossexuais, os candomblecistas e umbandistas – e o que é pior – em muitas das vezes por aqueles que não deveriam demonizar, criminalizar e discriminar absolutamente ninguém: os cristãos, cujos valores éticos primordiais são o acolhimento, o amor, a misericórdia, o perdão...

Entretanto... Como é então não ser criminoso ou demonizado aqui no Brasil?

Não ser criminoso ou demonizado no Brasil talvez seja não ser de esquerda, execrar o Estado e todos os políticos, chamar trabalhadores em greve de vagabundos (e aposentados também, como certo príncipe uma vez afirmou), ser contra as quotas nas universidades, ver na pobreza um defeito semelhante a um defeito físico que não pode e que não DEVE ter jamais cura, é ser cristão e odiar quem não é.

Com efeito, por todo o exposto acima, sou então um criminoso de alta periculosidade e extremamente satanizado.

Bem, se até Jesus foi acusado no Evangelho pelos fariseus de ter parte com belzebu por praticar sempre o bem e querer sempre o bem para todos, inclusive para os excluídos pela sociedade de sua época por serem leprosos, cegos, deficientes físicos, pobres, pagãos, etc. – então, porque justamente eu, reles mortal, também não seria.

terça-feira, 14 de junho de 2016

“ÀS VEZES O QUE É LINDO AOS OLHOS, PODE SER PODRE AO CORAÇÃO...” - trecho da canção Dois Gumes - da banda Uns e Outros

Higienizar a vida. Lavar a alma...

A limpeza que se espera é uma limpeza verdadeira, profunda. O banho que se espera é de humanidade.

Quando eu era criança, para mim era difícil tomar banho no inverno, pois mesmo sendo o banho quente eu sabia que quando terminasse eu sentiria muito frio. Então eu fazia uma higienização superficial: com as mãos molhadas humedecia os cabelos e o corpo, humedecia também o sabonete e botava um pouco do shampoo no ralo do box para fazer um pouco de espuma com os pés. E por fim não me esquecia de me secar levemente para não sujar a toalha. Pois, caso isso ocorresse, talvez eu tivesse que tomar banho de verdade, mas, desta vez, sob a supervisão de um adulto.

Pronto. Tudo para não sentir muito frio.

Lembrei-me disto depois de pensar na postagem abaixo que compartilhei.


E também após ler uma outra postagem sobre a situação dos moradores de rua da cidade de São Paulo, onde é relatado que os guardas municipais estão recolhendo os pertences mínimos dos pobres, entre os quais: cobertores, mantas, pedaços de papelão e tudo mais usado pelos irmãos sem-teto para se protegerem do frio que tem sido tão rigoroso com São Paulo nos últimos dias.
Leia a matéria aqui:
http://www.diariosp.com.br/mobile/noticia/detalhe/93017/gcm-tira-cobertas-de-moradores-de-rua-em-sao-paulo

Ora, se há problemas em os seres humanos moradores de rua não quererem ir para abrigos, se há qualquer outro tipo de problema para os mesmos preferirem ficar na rua, nada justifica lhes tomar os cobertores, papelões, mantas ou seja lá o que for que lhes proteja do frio.

Há suspeitas de que houve mortes de moradores de rua por hipotermia... Meu Deus...

Se somente a perspectiva de sentir um pouco de frio me fazia fingir tomar banho quente (não frio) só por medo de sentir um pouco de frio depois, que dirá uma pessoa que está morando na rua e que só possui os poucos panos que lhes restam na vida para dormir tendo como teto, quando muito, uma marquise ou papelões ou panos em um abrigo semelhante aos que eu fazia quando era criança para brincar de caverna.

Sim, acabo de fazer o que me foi ensinado fazer para não querer, para repugnar e para combater o sofrimento alheio: me colocar no lugar do outro. Não que eu esteja pondo em prática uma lição decorada, mas deixando pulsar o coração que a vida me deu e moldou.

Uma cidade higienizada assim permanece suja, porque tudo que é desumano é sujo. Eu fingia tomar banho e permanecia sujo. E o pior frio que se pode ter é o frio do coração. Sim, por vezes é inverno também em meu coração, não me excluo. Mas me é dada a chance sempre de reaquecê-lo. Na fotografia abaixo há um exemplo claro de um coração nenhum pouco frio, do coração que não abro mão de sempre querer para mim.


Leia sobre a matéria da imagem acima aqui:
http://www.plofnariz.com/2016/06/morador-de-rua-brasileiro-causa-comocao.html?m=1




segunda-feira, 23 de maio de 2016

É MAIS FÁCIL ABANDONAR OS FILHOS DO QUE AS PRÓPRIAS CONVICÇÕES

Um é flamenguista e o outro vascaíno.

Os dois, em uma discussão sobre seus clubes de coração, irão ressaltar as virtudes e vitórias de seus times, principalmente as vitórias de um sobre o outro.

Futebol é paixão. Por isso nenhum dos dois torcedores irá deixar de torcer apaixonadamente por seu clube depois da discussão. Não há possibilidade de “virarem a casaca” porque a paixão não permite.

E em outra oportunidade a discussão será retomada e o desfecho será o mesmo.

Mas... trazendo isto para nossa situação política atual, mais precisamente para a escuta telefônica do diálogo entre o ministro do Planejamento de Temer, Romero Jucá, com o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, como as pessoas pró-impeachment agora se colocarão? Uma vez que, agora, irrefutavelmente, a escuta deixa clara a intenção do impeachment: abafar a corrupção e não combatê-la.

No diálogo são revelados contatos feitos até mesmo com o a Suprema Corte para estancar, por meio de um pacto, o sangramento causado pela Lava-Jato de Moro, que dava o claro recado: se não tirarem Dilma sobrará para vocês também. A Suprema Corte, segundo a escuta, também concordava com o pacto para sossegar o juiz das camisas negras e sujas pela corrupção que ele notoriamente também pratica por meio de incontáveis ilegalidades, pacto este que só seria factível se Dilma fosse apeada do poder. Portanto, as pessoas pró-impeachment levaram um soco na boca do estômago de vez, pois agora não há dúvida alguma: Dilma Rousseff foi vítima de um golpe, foi vítima da realidade que ela e Lula ajudaram a combater como nenhum outro governo na história deste país, plagiando o ex-presidente Lula: a corrupção.

Qual será agora a postura das pessoas pró-impeachment? Qual será a postura das pessoas de bem, enganadas ardilosamente pelo esquema golpista midiático-jurídico-político-policial? Há pessoas que se recolherão, talvez por vergonha, ou talvez porque não sentem vergonha, mas por não terem argumento mediante prova tão cabal, termo que Rosa Weber gosta de dizer quando provas não tem. Isso faz lembrar um amigo que mandava um recado à ministra Weber, logo após a divulgação desta escuta reveladora: “Entendeu agora porque este impeachment foi golpe, ministra?”, devido ao fato de ela ter pedido explicações para presidenta afastada do porquê de ela declarar incessantemente ter sido apeada por um golpe parlamentar. Também li em uma postagem bem engraçada no facebook, em que puseram Dilma falando para Rosa Weber: “Falo golpe porque a literatura constitucional me permite, ministra, em seu artigo 5º.”, já que a ministra condenou José Dirceu sem provas cabais, mas porque a literatura jurídica permitia, como ela própria declarou. Sim, no Brasil se condena sem provas, basta a vontade de condenar e um historinha bonitinha pra contar.

Mas, voltando à vaca fria, que outrora tossia, para mim poucas pessoas que foram a favor do impeachment se voltarão contra ele – porque, como diz um frasista que não sei quem é: “é mais fácil abandonar os filhos do que as próprias convicções”.

No futebol faz até sentido, defender seu time mesmo sendo ele indefensável.

Mas na política, entre as pessoas de bem, esta postura mostra o que o orgulho humano pode fazer com ele próprio e, com efeito, com a sociedade na qual está inserido.

ÊH, Ô, Ô, VIDA DE GADO / POVO MARCADO / EH, POVO FELIZ! - Admirável Gado Novo, canção de Zé Ramalho

Em minha época de colégio, jamais quis ficar deslocado de um grupo. Nele me sentia forte. Não queria levar a vida dos que se destacavam de todos e viravam alvos de chacota, que hoje chamam bullying. Meu grupo agia sempre em conjunto, porque fazer as coisas em grupo nos dava sempre a sensação de que teríamos êxito em nossas empreitadas. Geralmente nos uníamos para fazer coisas não lá muito boas, mas ser punido em grupo também nos dava certa sensação de segurança: “se todos foram punidos, não tem tanto problema assim eu também ser punido, pensávamos”, pois assim eu poderia usar o único argumento possível para minha família: "eu não fiz sozinho, outros também fizeram". É claro que não colava: "se os outros comerem bosta você vai comer também???!!!" - perguntavam minha mãe, ou minha avó, ou meu avô, ou minhas tias... Na verdade meus grupos não eram pequenos, e costumavam seguir certo ideal de transgredir por transgredir muito disseminado na época entre todos do grupo. Quem transgredia mais tinha mais autoridade sobre o grupo, mesmo sendo a transgressão totalmente infundada, muitas das vezes maldosa, mas como influenciava a todos, então todos a ela aderiam.

Bem, o que disse acima pode muito bem ilustrar o que os especialistas hoje chamam de "comportamento de massa", em relação ao processo de industrialização e desenvolvimento dos meios de comunicação de massa. Diz Ivan Carlos de Oliveira, que "a principal característica da massa é o pseudo-pensamento. A massa acredita que pensa, mas só repete o que ouve nos meios de comunicação de massa."

Isso faz ocorrer com grande frequência a reprodução de uma falácia chamada "Argumentum ad populum": se todos dizem então é certo. Ou ainda a chamada falácia do apelo a autoridade: se alguém famoso diz que determinado produto é bom, esse produto é comprado por causa da apresentação do artista, que é famoso, o que lhe dá autoridade entre os fãs, e não porque o produto é necessariamente bom.

Esse mesmo autor também fala que "o comportamento de massa é identificado no complexo límbico, a camada do cérebro característica de mamíferos e que governa o instinto de rebanho - isso explica porque animais frágeis conseguem em muitas das vezes resistir a animais de maior porte - porque se juntam. Assim, a aspiração máxima do integrante da massa é ser aceito pelos seus pares." Daí se entende como os meios de comunicação de massa se preocupam e cada vez mais se especializam em trabalhar com essa dimensão do ser humano - ou você usa o que estou lhe vendendo, ou você apoia essa proposta política hegemônica, ou você acredita na notícia que estou lhe dando, assim desta forma, ou ficará à margem da maioria que aceita, que compra, que compartilha, pois "Caititu fora da manada cai no papo da onça." – provérbio português.

Na verdade (sem depreciar meu povo que amo e do qual faço parte, só fazendo uma metáfora usada inclusive por Zé Ramalho) o povo brasileiro é como o gado bovino, é forte, muito forte, mas não tem consciência da força que tem. Mas o ser humano, como diz Aristóteles, "é um animal racional político"! Assim, além desse instinto de rebanho, o ser humano é também racional, e por isso é capaz e deve conjugar as duas dimensões, a racionalidade e o instinto de rebanho, para que este se guie cada vez mais por uma orientação mais crítica e reflexiva - antídoto para o comportamento de massa manipulado pelos meios de comunicação hegemônicos. Somente uma educação de qualidade fará essa massa ser cada vez mais senhora de si. E não massa tão facilmente manipulável – o que antigamente se nomeava muito como “massa de manobra”.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

SE AS REGRAS DO JOGO NÃO MUDAM...

Vamos usar alguns exemplos de alguns esportes.

No vôlei, as regras mudaram muito, e é um esporte que não tem muito pudor em mudar uma regra aqui e ali até hoje. Para se marcar um ponto, por exemplo, primeiramente a equipe tinha que ganhar um saque, que na prática significava ter que ganhar dois pontos para fazer um. Hoje, se a equipe ganha o saque, também ganha o ponto junto. Era uma regra injusta, portanto.

No futebol, esporte preferido de nossa nação, no qual em um passado recente tinha o poder de, pelo menos por algumas semanas, unir a nação, a “pátria de chuteiras”, ao longo do tempo também vem tendo sua regra modificada. Um exemplo foi o atraso de bola para o goleiro, que hoje não é mais permitido fazer com os pés, antes era permitido ser feito até mesmo com os pés. Isso diminuiu bastante o artifício que os times tinham de poder prender por muito tempo a bola na defesa, o que realmente deixava o futebol bem mais chato.

E quanto à corrupção? Será que só prender corruptos é suficiente para que a corrupção diminua drasticamente em nosso país?

A resposta é: não.

Por uma questão bem simples – se as regras do jogo não mudarem, nada muda. O vôlei e o futebol mostraram que somente mudando as regras as coisas puderam melhorar de maneira realmente consistente. A questão da corrupção não se resolve apenas prendendo pessoas corruptas, o que é necessário, mas não suficiente. Se a corrupção é sistêmica, o sistema deve ser mudado – porque é o sistema que propicia e por isso estimula tanta corrupção por parte do binômio agentes públicos-agentes privados. A doação de empresas privadas é um exemplo claro de estímulo à corrupção por si só que, unido ao nosso presidencialismo de coalizão, funciona como um hipotético dono de uma hipotética escola infantil que quer que o vigia pedófilo do jardim de infância não cometa atos de pedofilia com as crianças que ele vigia.

Cunha, quando presidia a câmara dos deputados, queria claramente mudar as regras do jogo sim, mas para deixar, de modo legal, tudo como está, isto é, para tornar constitucional de uma vez por todas as famigeradas doações. Isto seria o mesmo que combater um crime descriminalizando-o. Iria apenas mexer nas estatísticas e nada mais.

sábado, 7 de maio de 2016

A MINHA ENXAQUECA E AS ENXAQUECAS DE NOSSO PAÍS

Descobri enfim o que realmente causa tanta dor em minha cabeça e com tanta frequência: o nome da enfermidade é enxaqueca – e não cefaleia.

Segundo determinado neurologista, por definição a enxaqueca é um estado de hiperatividade dos neurônios que facilita a passagem de uma informação errada para os centros cerebrais responsáveis pela consciência da dor dizendo pra ele: VOCÊ ESTÁ COM DOR!!!!!!!

Portanto a enxaqueca é uma falsa dor, muito embora seja uma dor, ou muito embora, nas crises mais agudas, doa absurdamente de modo a incapacitar quem deste mal sofre.

É por isso que em uma de minhas crises, fui à emergência, tomei três medicamentos injetáveis, e a dor não passava. Mas agora fica claro. Como remédios para dores verdadeiras vão surtir efeito no tratamento de uma dor que é falsa?

O médico, depois do terceiro medicamento disse: “Meu amigo, não vou colocar mais nada no seu corpo não. Procure ver com um especialista o que você tem dentro desta cabeça”.

Fui então primeiro ao otorrinolaringologista que, através de um exame de imagem, descartou a sinusite, sinalizou para uma provável enxaqueca, e me encaminhou para um neurologista. Este confirmou o diagnóstico: enxaqueca. E me passou um remédio chamado SumaxPro, próprio para enxaqueca – não sei se acalma a hiperatividade dos neurônios ou se bloqueia a passagem da informação errada, ou se faz os dois. Só sei que até duas horas a dor enfim passa. Uma espécie de poção mágica não instantânea.

Frequentemente se houve: “Estava com enxaqueca. Tomei um comprimido de dipirona e a dor passou.” Não era enxaqueca!!!!! Se fosse nem três medicações para dor injetáveis passariam sua dor!!! Quanto mais um comprimido de dipirona!!! Não banalizem minha dor!!!

Nosso país vive hoje uma crise parecida com a minha enxaqueca. Ela (a crise) é um mal que, como era minha enxaqueca, ainda não é reconhecida por todos como realmente é, e por isso é falsamente diagnosticada, e por isto é tratada com remédios semelhantes a dipironas sódicas – onde Moros e Joaquins parecem combater a corrupção eficaz, parcial e definitivamente, onde tirar uma presidente honesta do cargo e colocar um ficha suja envolvido no escândalo da lava jato com um projeto extremamente antipopular e de manutenção do favorecimento às grandes fortunas e ao status quo é a solução para todos os problemas do país.

Igual como em minha enxaqueca antes de eu conhecer o SumaxPro. Eu sentia muita dor, tomava muito remédio para combater muita dor, mas, exceto a sensação de estar combatendo a dor, nada mais agia em benefício da extinção da dor. Como só a sensação de estar combatendo a dor não bastava para combatê-la – a dor sempre continuava e se agravava. Igual a grande crise atual de nosso país. Igualzinho.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

ALGUMA COISA SOBRE O FANATISMO RELIGIOSO E POLÍTICO - na minha humilde visão, é claro

Qual é a atitude, ou as atitudes que caracterizam uma pessoa fanática?

A principal, ao meu ver, é a cegueira. Cegueira para o que contraria suas convicções – mesmo que as contradições sejam baseadas em evidências.

Quando o fanático procura algum tipo de fundamentação para o seu fanatismo (e não é sempre que isso acontece), somente procura fundamentos que favoreçam sua opinião, e, além de descartar toda fundamentação da opinião contrária, por mais que seja claramente coerente, descarta também, é claro, tudo que em sua própria fundamentação seja frágil demais para se sustentar.

O fanatismo político hoje se assemelha muito ao fanatismo religioso, e não precisa ser comparado ao fanatismo que infelizmente assola a religião mulçumana.

Sim, porque o fanático religioso não é somente aquele que lamentavelmente mata em nome de um suposto deus da morte (este é o cume terrível, diabólico e anti-religioso do fanatismo religioso), mas também aquele que, por exemplo (em grau infinitamente menor, mas pulsante) omitiu para o filho as páginas da Bíblia que falam de Maria, a mãe de Jesus, numa atitude claramente anticatólica, pois os cristãos evangélicos entendem o papel de Maria na história da salvação diferente dos cristãos católicos – e tanto um quanto o outro tem fundamentos para sustentar suas visões distintas segundo sua base comum de fundamentação teológica primordial: a Bíblia. Por isso há exageros tanto na importância desmedida e indevida que se dá à Maria ao ponto de não se aceitar a mudança necessária para uma prática devocional correta, quanto ao desprezo que se dá a mesma como se não existisse, quando na verdade ela é “Bendita entre as mulheres” (portanto não é uma mulher como as outras), mas não por causa dos méritos dela própria, mas porque “bendito é o fruto do teu ventre” – ou seja, pelos méritos de Jesus, o Cristo (cf. Lc 1,42). Não há e nem nunca haverá fanatismo sem exageros. E os exageros, por outro lado, sempre irão redundar em uma extrema carência. Quando se emprega zelo exagerado aqui, certamente faltará cuidado ali.

O fanatismo político atual em nosso país carrega todos estes ingredientes. É evidente – caso contrário não poderíamos chamar de fanatismo.

O bandido pode ser bandido, contanto que tire o suposto bandido que não gosto do poder. “Somos milhões de Cunha” – diziam os cartazes. O fundamento para isto é o chavão: “Não temos bandido de estimação” – contradito pelos agradecimentos encharcados a Cunha que fartamente se viu nas redes sociais pelos favoráveis ao impedimento da Presidente Dilma, inclusive para muitos dos que diziam e dizem não ter bandido de estimação. Agora o chavão volta com tudo – mas sem os agradecimentos, porque Cunha, um dos maiores escroques que o Brasil já teve, foi afastado de suas funções e não serve mais para o interesse do grupo amplo fora e dentro do parlamento, fora e dentro do judiciário – interesse primordial que era apear Dilma Rousseff, uma presidente sem contas na Suíça, sem casa fora do país, sem frotas de carros importados, sem crimes de responsabilidade, etc., mas os interesses das grandes fortunas não a quer mais governando, e conseguiu essa adesão cega das pessoas, e conseguem competentemente cegar inclusive os que serão prejudicados com o projeto de Temer, também envolvido na Lava-Jato e praticante também das “supostas pedaladas fiscais”, como se viu na acusação de Janaína Possuída Pascoal, que a mesma sem querer o fez para o senado e para todo Brasil ver e ouvir. Não importa, Dilma vai ser apeada do cargo, então Temer pode ter feito as falcatruas dele – o importante é que ele vai substituir Dilma, que é tudo o que Temer não é: inocente em relação as acusações que até agora lhe fazem. E ainda dizem não ter corrupto de estimação.

Apoiam a prisão do ex-presidente Lula, mesmo que as provas fabricadas contra ele não tenham dado em nada, tudo isto as custas de uma verdadeira devassa em sua vida pessoal e financeira; ele deve ser preso, mas sem provas, e o povo o acusa de ser tão sujo quanto Cunha – o melhor presidente que o Brasil já teve, que enfim iniciou a promoção de uma política de bem estar social que beneficiou a tantos brasileiros que historicamente sempre foram excluídos e marginalizados pelos sistemas que sempre vigoraram no país. O que é pior: tem pessoas que põem tudo que está acontecendo hoje na conta de Lula. Vejam bem: tudo que ocorre hoje. Isso não é mais analfabetismo político – é fanatismo mesmo, porque as evidências a favor de Lula estão aí – mas a cegueira que não quer ver as ignoram todas.

Bem, no final de contas, chego a seguinte conclusão: o fanatismo não faz as pessoas terem apenas corruptos de estimação, mas terem também inocentes de estimação.

domingo, 1 de maio de 2016

QUAL A SEMELHANÇA ENTRE O CLUBE DE REGATAS VASCO DA GAMA E O SENADOR AÉCIO NEVES?

A princípio nenhuma.

Mas, pensando direitinho em um e outro atualmente, encontrei duas semelhanças importantes – que dizer... duas semelhanças importantes para o Vasco e Aécio, é bom que se diga.

Os dois, Vasco e Aécio, estão vivendo dias de glória, de profunda vitória, estão rindo à toa, como quem ganha um título de nível ao menos continental ou uma eleição nacional como deve ser toda eleição realmente vitoriosa: nas urnas.

Entretanto, vamos às recentes histórias, e vitórias, de um e de outro.

O Vasco, no ano de 2015, habitou mais a zona de rebaixamento do campeonato brasileiro da série A do que qualquer outro lugar, até o final da competição. Hoje o Gigante da Colina está prestes a mostrar todo seu gigantismo na série B do Brasileirão de 2016.

Aécio Neves, após ter perdido nas urnas para a presidente Dilma Rousseff, desde então não parou de querer assumir uma postura de tricolor das Laranjeiras, recorrendo incessantemente aos tapetões políticos para tentar, na marra, assumir o posto que perdeu nas urnas.

Se a derrota em 2015 do Vasco da Gama e de Aécio Neves em 2014 os une de algum modo. Há certas vitórias que também os unem. Vamos lá...

O Vasco tem ganhado do Flamengo, e isso faz seus torcedores, seu presidente, jogadores e comissão técnica verem tudo colorido para além do uniforme alvinegro que vestem, pois isto é, e os vascaínos não gostam de esconder, a grande vitória que o Gigante da Colina almeja todos os dias do ano, e quando alcança, tudo se transforma, até a perspectiva futura muda de letra: embora seja B, a série a ser disputada parece então transformar-se em A. Pouco importa se o Carioca será ganho ou perdido, a meta principal já foi cumprida – ganhar jogos seguidos do Flamengo – este na série A desde sempre e procurando criar uma estrutura consistente enquanto clube. Sim, o Flamengo está triste por ter sido desclassificado de duas competições seguidas – por ter perdido para o Vasco, um de seus arquirrivais (o Flamengo tem mais de um arquirrival – o Vasco parece só ter o Flamengo). Aliás, na verdade é o Vasco que é freguês do Flamengo de anos, pois historicamente o Flamengo tem doze vitórias a mais que o Vasco sobre o Fla até o momento.

Já Aécio Neves parece enfim ter conseguido que Dilma Rousseff seja apeada do cargo que conquistou nas urnas, democraticamente. Sim, se isso se confirmar as urnas serão negadas, a democracia será mutilada por um esquema midiático-político-jurídico-policial feito sobre medida para um fim: destituir um governo de cunho popular eleito democraticamente para dar lugar a outro que volte a olhar majoritariamente para os interesses do rentismo, do capital, das elites financeiras de nosso país. Aécio Neves encontrou assim um jeito de afinal se sentir feliz – que é assumir a mesma postura que o Vasco assume para ser feliz – inventar uma felicidade suprema capaz de encobrir em sua cabeça a grande derrota que dia-a-dia vem se confirmando: sua derrota nas urnas e a impossibilidade de um dia poder disputar as eleições presidenciais com condições de ser vitorioso novamente: delações e mais delações na lava jato o envolvendo com clareza de detalhes, envolvimento em outros escândalos, e até suspeita de envolvimento com o tráfico de drogas.

Mas... Vasco da Gama! Vocês ganharam à beça do Flamengo! Isso é o máximo!

Mas... Aécio Neves! Dilma Rousseff dificilmente não será apeada do cargo muito por causa do movimento iniciado por você já no dia seguinte à sua derrota nas urnas! Derrota esta para uma adversária eleita democraticamente, sem nenhuma acusação contra sua honradez, contra sua honestidade, com seu nome não constando em nenhum escândalo, em nenhum crime de responsabilidade....

Alvíssaras!!!!!

O Vasco e o Aécio são realmente bons demais!!!!!

sábado, 30 de abril de 2016

EM MEIO À RINITE...

“Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu...”

O bom e velho Chico e suas brilhantes traduções dos sentimentos das pessoas. Das gentes...

Uma rinite alérgica brava me fez levantar da cama assim hoje. Como quem partiu e morreu... Mas sem dramas maiores. Sem tragédias gregas ou de qualquer outra nacionalidade. Apenas meu estado físico atual, que comigo irremediavelmente afeta também meu estado de espírito. Mas, repito, nada desesperador - esse estado não é de sítio nem de calamidade pública, muito menos de coma. É só até o Loratil fazer efeito, caso este antialérgico sirva para rinite, mas arrisquei um comprimidinho assim mesmo. Já o tomei antes e não me causou alergia...

Será que um antialérgico pode causar alergia?

Será que o amor pode gerar desamor? Não. Quem ama não mata – o jargão está corretíssimo.

O poder “endireita” a esquerda como diz Delfim Neto? Também não. Esquerda é esquerda e direita é direita, as gentes sim mudam de lado, e continuam sendo pessoas, isso não muda, os lados também não mudam, continuam sendo lados e pronto. Todavia, se os lados desunem, o ser pessoa reúne. Sou um romântico, eu seu... Para alguns inocente até... Mas não sou estúpido, entendi muito bem o que Delfim quis falar. Tranquilizem-se.

Amor e ódio de mãos dadas.

Esquerda e direita na mesma moeda.

Até que ponto as coisas se ligam ou são incompatíveis? Não sei tudo. Mas algumas são sim próximas e outras inconciliáveis conforme dizem os jargões.

Mas, de volta à rinite, eu sei que ela passa, que o ódio passa, embora dependa de quem o sinta... Mas o amor não, este é entranhado no (a) amante. É por isso que “Amor que acaba não foi amor”, como traduz brilhantemente o amor o também bom e velho Carlos Heitor Cony, um outro tradutor brilhante dos sentimentos das gentes.

Texto escrito em junho/2015.

LOBO COM PELE DE LOBO MESMO

No texto que publiquei esta semana intitulado “Igualzinho só que diferente” eu externava minha alegria acerca da derrota do Cunha que, mais que isso, era uma vitória de toda sociedade brasileira, pois seu projeto de institucionalização das doações (na verdade investimentos) para campanhas eleitorais por parte de empresas privadas havia sido derrotado.

Eu então falava dos argumentos dos defensores deste financiamento citando alguns exemplos e me indignava com a “cara-de-pau” de seus defensores. Eu dizia que não havia mais nada sutil, tudo era dito de forma direta e objetiva, daí os termos “cara-de-pau” e “caradura” que inclusive tive o trabalho em lhes dar uma definição. Não deixe de ler.

Todavia, Cunha virou o jogo no dia seguinte, às custas de chantagens feitas aos partidos chamados nanicos naturalmente ameaçando asfixiá-los, e fazendo também certamente todo tipo de negociatas e outras chantagens com outros parlamentares. Resultado: até mesmo o ecológico PV voltou atrás em seu voto, outros partidos menores e políticos que haviam votado contra e outros que se abstiveram mudaram seus votos para sim ao financiamento/investimento citado.

Cunha faz parte da bancada evangélica, e de evangélico notoriamente nada tem. Entre os interesses cristãos e os do capital que o sustenta e o enriquece ele fica sempre com a segunda opção. E mais uma vez o Evangelho realmente se cumpre, pois "Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará a um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro" - Mt 6,24.

E Cunha não faz sua opção às escondidas, muito ao contrário, verbaliza suas intenções sempre empresarias e nunca populares, pois ele afirmou publicamente, por exemplo, que seu modo de pensar é igual ao modo de pensar do empresariado brasileiro. Basta ver sua lei vitoriosa que trata da terceirização das atividades fins das empresas, etc..

Portanto, usando ainda temas evangélicos, Cunha é um lobo, e hoje é o lobo Alfa (nome dado ao lobo que lidera e comanda a alcateia), mas não é um lobo com pele de cordeiro, pois no congresso não é mais necessário ser assim – ele é um lobo com pele de lobo mesmo, tal qual sua alcateia.

O avô de uma amiga minha, também professora, lançou uma profecia por demais coerente e com muito fundamento, ao saber da virada de mesa vitoriosa articulada por Cunha.

“Eduardo Cunha e sua equipe nota 10 fará tanta besteira que vai fazer a cama do Lula, que ainda vai voltar sendo aclamado pelo povo aterrorizado. Eu vou rir. Não vou achar ruim não.”

Vejo este comentário como um vaticínio mas também como uma constatação lógica; é claro que o que eu preferiria de verdade é que o parlamento realmente nos representasse, mas...

Espero também que Cunha seja somente o Alfa e nada além disto, porque somente estando nesta posição os estragos produzidos por sua liderança diabolicamente competente são imensos. Falo isso porque se ele continuar a ser o Lobo Alfa e tiver a pretensão de ser de alguma forma o Alfa e o Ômega de nosso parlamento, somente uma nova encarnação do Verbo poderá dar jeito na coisa.

Não... Por favor não me digam que hoje ele já é o Alfa e Ômega de nosso congresso... Por favor não me digam isso...

Texto escrito em maio/2015.

IGUALZINHO, SÓ QUE DIFERENTE

Costumam receitar óleo de peroba para pessoas classificadas como “caras-de-pau”.

Com certeza essa expressão (cara-de-pau) é concedida a quem consegue, diante de situações tidas pela maioria como reprováveis, manter-se indolente, impassível, e continuar, na “caradura”, afirmando ou agindo de modo reprovável sem demonstrar nenhum tipo de constrangimento.

Episódios assim costumam escandalizar às pessoas, e então por isso muitas das vezes continuar a agir ou falar na “caradura” acaba sendo uma forma desesperada de quem estava agindo ilicitamente por “debaixo dos panos”, mas que por algum motivo foi descoberto.

Quando isso se generaliza e passa a ser regra, pode até ter seu lado bom porque as máscaras caem e facilmente se consegue saber quem é quem de verdade.

Por outro lado, se a indolência por parte de quem presencia isso tudo ou passa a saber disso tudo impera, o baile de máscaras pode até ser interrompido, mas o show de horrores se agrava.

Ontem (26/05/2015), ligando a TV e sintonizando na TV Câmara, quando votavam a questão do fim ou permanência do financiamento de empresas privadas para campanhas eleitorais, o que sem muito pensar deve terminar o mais rápido possível, porque toda empresa privada visa o lucro financeiro, e ao financiar a campanha de um candidato é claro que a empresa investidora quererá sua contrapartida financeira, e há um termo preciso para este jogo imundo: corrupção, o mais intrigante foi o show de horrores generalizado por parte dos que defendem a permanência deste sistema. Não havia sutileza nas falas, não falavam em metáforas, mas eram diretos, claros e objetivos.

Alguns exemplos:

“Se as empresas não financiarem as campanhas, haverá muito caixa dois” – admissão explícita de ele próprio fazer caixa dois se não houver mais esse tipo de financiamento, é isso?

“Aqui todo mundo gastou muita grana gente!” – o que todo mundo faz é então sempre lícito, não importando o que seja?

“O supremo é contra, então vamos mudar a constituição que aí o supremo não vai poder fazer nada!” – Tornar constitucional o toma-lá-dá-cá, é isso?

E por aí vai....

Mas não foi incorporada tal proposta à constituição, felizmente. Mais do que uma derrota de Cunha e companhia, foi uma vitória do povo brasileiro. E uma reforma política sem a participação popular não é reforma política. As ruas devem ser ouvidas, a sociedade toda deve ser ouvida, porque a política diz respeito a todos, e não só às casas legislativas e ao executivo e ao judiciário (sim nosso judiciário é político, não é e nem nunca foi técnico – não se enganem).

Aristóteles já dizia que o homem é um animal racional político e afirmou isto genericamente; não se referiu somente a um grupo ou a alguns grupos.

Segundo João Ubaldo Ribeiro, "se não gostamos do comportamento dos políticos e do funcionamento do sistema e não fazemos nada quanto aisso, estamos sendo políticos: estamos contribuindo para a perpetuação indesejável e inaceitável. Se queremos fazer alguma coisa para melhorar a situação, também estamos sendo políticos, pois a única via de ações possível, nesse caso é a Política".

Qual a sua opção política?

Quanto ao Cunha e sua turma, querem agora propor o financiamento de empresas privadas para os partidos, e não mais para candidatos, como se na prática isto não fosse funcionar da mesma forma.

Portanto devemos ter outro show de horrores em breve. E a pergunta que ficará será aseguinte:

“As empresas produtoras de óleo de peroba devem fornecer seu produto para os parlamentares ou para seus partidos?”

Um velho amigo meu, também extremamente "caradura", porque ao contar suas piadas permanecia sem dar um sorriso sequer, certamente me diria: “olha, meu caro, de uma forma ou de outra o resultado seria igualzinho, só que diferente...”

Texto escrito em maio/2015.

ESCOLHIDOS

Hoje percebo que sempre fui um homem extremamente pretensioso. Sempre pretendi muito várias coisas, o que é natural.

Ter a mulher da minha vida, por exemplo...

Mas ela ficou somente no campo da mera pretensão. Pois no final das contas foi ela que me escolheu, foi ela que me pretendeu e eu me deixei escolher e com ela me casei.

Nos anos oitenta passei a ter pretensões literárias no sentido de começar a ler livros, porque até então nem gibis eu tinha o hábito de ler. Mera pretensão... Acabei sendo tragado pelo mundo das letras e até livros escrevi.

Muito embora a vida sempre tenha me dado a impressão de me deixar escolher as coisas, na verdade muitíssimas das vezes o escolhido acabava sendo eu.

Os livros me escolheram. A mulher da minha vida me escolheu. Porque é assim mesmo: muitas coisas e pessoas e situações nos escolhem apesar de parecer o contrário.

Vida, morte, amor e livros – tudo isso nos escolhe. Tudo.

“Não sou eu quem me navega / Quem me navega é o mar”.

É... Talvez o grande segredo da vida (ou um de seus grandes segredos) é saber deixar-se escolher pelos corações e pelas marés. A vida e suas escolhas imperiosas...

E como também é certo que “Quem sabe faz a hora não espera acontecer”, essa atitude nem de longe é passiva, porque se deixar escolher é também questão de escolha: entre todas as ondas que me quiseram levar, como um bom timoneiro, fui eu que sempre escolhi as que me carregaram.

Essa é a dialética da vida, de escolher e ao mesmo tempo ser escolhido. Uma mesma moeda com suas duas faces, uma mesma pessoa que livremente se deixa prender, como bem nos diz o velho Camões. Como a vida sempre disse e o tempo todo continua a dizer.

Texto escrito em maio/2015.

AMOR À CAMISA

Os mais antigos que eu costumam dizer que nos tempos idos os jogadores de futebol jogavam por amor à camisa, o que significa dizer que, segundo eles, esses atletas de outrora tinham amor a seus clubes de origem, e que muito embora houvesse trocas de clubes, elas aconteciam em bem menor quantidade que hoje e sem prejuízo à fidelidade e ao amor ao time de origem do jogador.

Não sei até que ponto esta afirmação condiz fielmente com as realidades passada e presente de nosso futebol, mas, de um modo geral, concordo com ela.

Nos dias 15/03 e 12/04 aconteceram manifestações por todo país que, embora hoje especialistas apartidários contestem a quantidade de manifestantes oficialmente divulgada, foi legítima, porque todo desejo popular em uma democracia é legítimo, muito embora uma outra parcela que clamava por coisas bem diferentes não tenha sido tão veiculada pela mídia como esta foi – mas não é disso que quero falar.

As camisas usadas nas manifestações daqueles dois domingos tinham uma cor bem definida: amarela. Talvez sejam as camisas que encalharam por ocasião da copa de 2014, e que enfim encontraram a saída desejada pelos comerciantes, segundo afirmações de alguns.

Uma imensa seleção canarinho nas ruas de todo país pedindo, além da queda da presidenta Dilma, seu mote central, a intervenção militar e o fim da corrupção – talvez tenham outras reivindicações, peço perdão pois se tiveram eu sinceramente não sei quais foram.

Houve muita reportagem de campo aqui e ali, não só feitas por uma emissora, mas por programas diversos de outras. E nestas ouvi discursos que sinceramente contradiziam a cor da camisa vestida com enorme orgulho nesta manifestação. Exemplos:

“Meus filhos estão morando nos Estados Unidos, e logo nós iremos morar lá também para nunca mais voltar.”

“Está tudo certo para irmos morar em Miami. No próximo ano iremos para lá de vez”.

E quando determinado transeunte incauto apareceu no horário de uma dessas manifestações vestido com camisa de outra cor, mais precisamente vermelha, o mandaram para Venezuela e, principalmente, para Cuba.

Amor estranho amor à camisa manifestado por esses brasileiros como eu sou brasileiro. Na cabeça dessas pessoas o Brasil não é mais lugar para quem veste amarelo, vermelho, e talvez o rosa (esses deveriam ir para onde? Para São Francisco, EUA, talvez?).

Ah! Acho que compreendi! O Brasil é terra para os descamisados! Vista uma camisa de determinada cor e o Brasil não é mais lugar para você! Mesmo que sua cor seja o amarelo de nossa seleção!

Talvez isto possa explicar, quem sabe, o porquê de a nossa seleção canarinho ter tão poucos jogadores que atuem aqui, na pátria para os descamisados. Mas... Perdoem-me... Essa colocação foi pura maldade deste também incauto escrevinhador... Pois por uma boa oportunidade de trabalho ou em caso de extrema necessidade eu também iria para o estrangeiro, mas voltaria assim que possível, posso garantir.

Sairia também para fazer turismo ou para aperfeiçoar meus estudos, sem problemas, mas, repito, retornaria sempre e tão logo possível fosse, porque aqui é a minha pátria, minha casa. Continuaria lutando aqui por uma casa melhor como todo família brasileira luta por sua casa, por seu lar.

E para que esta minha opção fosse condizente com o simbolismo que a cor de minha roupa deveria indicar, eu então tiraria a camisa e manifestar-me-ia, como diria minha avó, nu da cintura pra cima.

Texto escrito em maio/2015.

O DONO DA BOLA

Lá no Estácio, onde parte de minha infância e toda minha adolescência foi vivida, havia três maneiras de alguém não ficar fora das inúmeras peladas que lá se disputavam amiúde:

1) Ser bom de bola.
2) Estar faltando alguém para completar um dos times.
3) Ser o dono da bola.

Comumente eu participava das peladas por causa das opções dois e três. Na verdade mais por causa da opção dois, pois nesta época não me recordo de ser proprietário de uma bola, nem “dente-de-leite” nem “corinho”.

Pois bem, quero falar agora sob a ótica do dono da bola.

De que vale ser o dono da bola e não jogar bola? Todo dono da bola queria jogar bola, e por ser o dono dela, isso garantiria que ele não ficaria de fora, mesmo ele sendo ruim de bola, um “pereba”, um “perna-de-pau”, etc..

É claro que, embora muito raramente, certos donos da bola sentiam um certo prazer em acabar com o prazer de todos repentinamente. E aí, no meio da pelada, quando o ápice da brincadeira estava em curso, esse desmancha-prazeres pegava a bola com aquele olhar e sorrisos sádicos e ia embora. Era muito xingado, é claro, de todos os nomes de baixo calão possíveis, inclusive sua mãe não deixava de ser alvo privilegiado dos impropérios de todos, se tivesse irmã sobrava também para ela...

Bem, a questão é: será que na vida adulta pode haver também episódios análogos a este? Será que tamanho regozijo com o prazer interrompido dos outros pode gerar tamanho prazer em algum coração já supostamente amadurecido pela idade e pela vida?

Sim. Na vida cotidiana há aqueles que querem ser exclusivos donos da bola. Um pouco diferente do exemplo dado acima, porque falo de alguns que têm a bola e têm o poder de jogar sozinhos e sofrem com a ideia de que algum "penetra indesejado" entre no jogo que julgam ser somente deles.

Na verdade estou escrevendo tudo isto por causa de uma reportagem antiga que li vasculhando coisas velhas, do ano de 2012, que traz uma declaração de uma colunista socialite, chamada Danuza Leão, que indagou o seguinte:

"Ir a Nova York já teve sua graça, mas, agora, o porteiro do prédio também pode ir, então qual a graça?"

Sim, ainda existem donos da bola como aquele tipo de dono de bola do Estácio de minha adolescência. E como Danuza Leão de minha idade adulta, para quem somente privilégios não interessa, a não ser se vierem acompanhados de exclusividade plena.

Texto escrito em maio/2015.

MENTIRAS SINCERAS

“SORRISO BOM SÓ DE DENTRO
NINGUÉM É BOM SENDO O QUE NÃO É
EU PARA SER FELIZ COM MENTIRA
MELHOR QUE EU CHORE COM FÉ”

São versos de Taiguara, da canção Piano e Viola, que me falam muito. Mas outros versos, de Mário Lago, da música Nada Além, tão contrários aos do Taiguara, também me dizem muito:

“EU NÃO QUERO E NEM PEÇO
PARA O MEU CORAÇÃO
NADA ALÉM DE UMA LINDA ILUSÃO”

Sim, a verdade está em primeiro lugar. Mas é bem verdade também que o coração precisa disparar vez e outra, que a emoção necessita explodir vez e outra em choro ou risos, ou nos dois.

Já dei rosas para minha esposa dizendo: “Rosas para uma flor”. É piegas. Eu sei. É mentira. Eu sei. Mulheres não são flores. Nem o contrário.

Vi um filme em oitenta e pouco, se chamava Blade Runner, nada daquilo era verdade. Mas fazia tanto sentido... Um androide, que também não existe, aos poucos tendo sentimentos humanos: compaixão, piedade... Tudo mentira. Mas fazia todo sentido.

Um autor de novelas, uma vez, não me lembro quem, disse que para escrever ficção o importante era a trama fazer sentido. Porque somente a verdade não precisava fazer sentido. A verdade é verdade e pronto.

Realmente a verdade é verdade e pronto, desde morrer por amor, pois como diz Clayton Craveiro, “Só quem morre de amor na verdade sabe morrer” (opa... essa verdade faz sentido sim).

Mas... desde matar em nome de Deus; usar a força não para proteger, mas para oprimir; maltratar a terra, na verdade nossa única morada... Tudo isso não faz sentido. Mas acontece de verdade e pronto, muito embora os motivos para que tudo isso aconteça sejam todos eles destrutivamente mentirosos, idolátricos, e, portanto, esse tipo de mentira decididamente nunca presta.

Assim, fico então com Taiguara e Mário Lago – porque chorar com fé realmente é melhor do que sorrir estando triste, e é por isso mesmo que rir ou chorar de verdade com a flor que não é flor e com o sentimento do androide inexistente é também extremamente verdadeiro.

E fico também com Cazuza, com toda certeza, pois “mentiras sinceras me interessam/ me interessam...”.

Texto escrito em janeiro/2015.

MEDIDA CERTA SEM "PERSONAL TRAINER"

Se eu soubesse o ponto exato e a medida certa.
Se entre tantas opções minhas avaliações me proporcionassem sempre optar pela melhor possibilidade.
Se eu conseguisse antever a porta que realmente fosse a da esperança.
Se eu soubesse uma forma de rolar os dados para darem sempre os números que escolhi....
Mas quase nunca sei...

Entretanto, para ser sincero, o que eu queria mesmo era saber a palavra certa.
E além disso o modo preciso de dizê-la.
E além disso o momento preciso de torná-la som para a outra pessoa ouvir.
Ou mesmo o momento exato de não dizê-la, para torná-la ainda mais audível.
Eu já me daria por satisfeito só com isso.
Mas, como digo na canção que fiz para minha esposa Alice:

“Se fosse a gosto, seria exato tudo / Mas fica azedo, amargo ou salgado / Ou fica doce, demais...”

Esse sou eu. Às vezes atrasado, às vezes adiantado. Demais...

Mas... Espera aí, às vezes sim pontual, dentro do tempo que me coube chegar, dentro do tempo que me coube conhecer, compreender. Dizer e calar. Sim, às vezes deveras pontual!

É... Hoje estou melancólico...

E foi exatamente em um dia de melancolia como hoje, que escrevi, depois de ter dito o que não deveria ter dito, como não deveria ter dito, etc., a letra da música que mencionei acima e que vou compartilhar com vocês na íntegra...


MAIS OU MENOS BLUES

Eu fiz de um tudo
Mas acho que ainda faltou algo
Ou botei algo demais...

Qual a medida certa do amor?
Qual a medida certa do amor?

Se fosse a gosto, seria exato tudo
Mas fica amargo, azedo ou salgado
Ou fica doce demais...

Qual a medida certa do amor?
Qual a medida certa do amor?

Foi o que eu disse
Ou foi o que eu não disse
Foi mera tolice
Ou algo importante demais
Que eu disse a Alice
Agora vou voltar atrás
Que eu disse a Alice
Por isso vou voltar atrás...



Esta música está disponível no site www.aniballobao.wix.com/aniballobao na opção músicas do menu,
a capela, somente eu e o gravador do telefone celular.


Texto escrito em 12/2014

SERÁ O BENEDITO!

Dizia meu avô que a única coisa que ninguém pode nos tirar é o saber.

Eu entendo o velho Benedito....

Somente o curso primário e em cartas ministrava-me verdadeiras aulas de ortografia (digitalizei uma dessas cartas, é só clicar na imagem ao lado).

Um apaixonado pelo seu estado natal, o Maranhão, e sua capital, São Luiz, que, segundo ele, já foi chamada de “Atenas brasileira”, tamanha a quantidade de literatos que a capital já produziu em certa época.

Dizia o Benedito ter chegado a ler trezentas páginas por dia, “quando eu era vagabundo”, eu explico: quando ainda não lhe era exigido trabalhar pelo pão de cada dia.

É... O velho Bené tinha razão – conhecimento ninguém tira.

Podem até se negar a oferecê-lo. Mas retirá-lo, nunca. Podem até dele fazer mau uso. Mas apagá-lo, nunca.

Imagino o Bené jovem hoje. Bastar-lhe-ia um PC, um notebook, um tablet, ou mesmo um smartphone – conhecimento sem fio, sem folhas, sem fronteiras, dedos sem saliva para passar as páginas.

O que o Bené procuraria tanto conhecer via tanta tecnologia? Quais autores ele leria? Qual ou quais gêneros ele preferiria? São só divagações... Eu sei... É quase como imaginar Pelé na seleção de oitenta e dois (para a mim a melhor que vi jogar, mesmo tendo assistido a de setenta em vídeos – que me perdoem os setentistas...). Mas são apenas divagações, nada além disso.

Na verdade é a saudade que está batendo – de ouvi-lo afirmar sobre a perpétua posse do conhecimento, o que não o impedia de partilhá-lo comigo, ou com quem quer que lhe pedisse. “O que significa essa palavra?” “Procure no dicionário, não sou eterno, mas significa isso...” Meu avô, meu google.

Hoje eu tento passar conhecimento, na verdade tento estimular o desejo de conhecer nos outros, na certeza de que quanto mais leciono, mais também aprendo. Não tenho neto (nem filho, infelizmente) para me procurar em meu quarto querendo saber o significado de alguma palavra difícil e desconhecida, como eu fazia com o Bené. Tenho uma sala de aula, na verdade várias delas, para agora eu afirmar que o conhecimento ninguém tira.

Sim, o saber que eu passo e ao mesmo tempo ganho daqueles que me chamam professor.



Obs.: Texto escrito por em 12/2014.