Em minha época de colégio, jamais quis ficar deslocado de um grupo. Nele me sentia forte. Não queria levar a vida dos que se destacavam de todos e viravam alvos de chacota, que hoje chamam bullying. Meu grupo agia sempre em conjunto, porque fazer as coisas em grupo nos dava sempre a sensação de que teríamos êxito em nossas empreitadas. Geralmente nos uníamos para fazer coisas não lá muito boas, mas ser punido em grupo também nos dava certa sensação de segurança: “se todos foram punidos, não tem tanto problema assim eu também ser punido, pensávamos”, pois assim eu poderia usar o único argumento possível para minha família: "eu não fiz sozinho, outros também fizeram". É claro que não colava: "se os outros comerem bosta você vai comer também???!!!" - perguntavam minha mãe, ou minha avó, ou meu avô, ou minhas tias... Na verdade meus grupos não eram pequenos, e costumavam seguir certo ideal de transgredir por transgredir muito disseminado na época entre todos do grupo. Quem transgredia mais tinha mais autoridade sobre o grupo, mesmo sendo a transgressão totalmente infundada, muitas das vezes maldosa, mas como influenciava a todos, então todos a ela aderiam.
Bem, o que disse acima pode muito bem ilustrar o que os especialistas hoje chamam de "comportamento de massa", em relação ao processo de industrialização e desenvolvimento dos meios de comunicação de massa. Diz Ivan Carlos de Oliveira, que "a principal característica da massa é o pseudo-pensamento. A massa acredita que pensa, mas só repete o que ouve nos meios de comunicação de massa."
Isso faz ocorrer com grande frequência a reprodução de uma falácia chamada "Argumentum ad populum": se todos dizem então é certo. Ou ainda a chamada falácia do apelo a autoridade: se alguém famoso diz que determinado produto é bom, esse produto é comprado por causa da apresentação do artista, que é famoso, o que lhe dá autoridade entre os fãs, e não porque o produto é necessariamente bom.
Esse mesmo autor também fala que "o comportamento de massa é identificado no complexo límbico, a camada do cérebro característica de mamíferos e que governa o instinto de rebanho - isso explica porque animais frágeis conseguem em muitas das vezes resistir a animais de maior porte - porque se juntam. Assim, a aspiração máxima do integrante da massa é ser aceito pelos seus pares." Daí se entende como os meios de comunicação de massa se preocupam e cada vez mais se especializam em trabalhar com essa dimensão do ser humano - ou você usa o que estou lhe vendendo, ou você apoia essa proposta política hegemônica, ou você acredita na notícia que estou lhe dando, assim desta forma, ou ficará à margem da maioria que aceita, que compra, que compartilha, pois "Caititu fora da manada cai no papo da onça." – provérbio português.
Na verdade (sem depreciar meu povo que amo e do qual faço parte, só fazendo uma metáfora usada inclusive por Zé Ramalho) o povo brasileiro é como o gado bovino, é forte, muito forte, mas não tem consciência da força que tem. Mas o ser humano, como diz Aristóteles, "é um animal racional político"! Assim, além desse instinto de rebanho, o ser humano é também racional, e por isso é capaz e deve conjugar as duas dimensões, a racionalidade e o instinto de rebanho, para que este se guie cada vez mais por uma orientação mais crítica e reflexiva - antídoto para o comportamento de massa manipulado pelos meios de comunicação hegemônicos. Somente uma educação de qualidade fará essa massa ser cada vez mais senhora de si. E não massa tão facilmente manipulável – o que antigamente se nomeava muito como “massa de manobra”.

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