terça-feira, 14 de junho de 2016

“ÀS VEZES O QUE É LINDO AOS OLHOS, PODE SER PODRE AO CORAÇÃO...” - trecho da canção Dois Gumes - da banda Uns e Outros

Higienizar a vida. Lavar a alma...

A limpeza que se espera é uma limpeza verdadeira, profunda. O banho que se espera é de humanidade.

Quando eu era criança, para mim era difícil tomar banho no inverno, pois mesmo sendo o banho quente eu sabia que quando terminasse eu sentiria muito frio. Então eu fazia uma higienização superficial: com as mãos molhadas humedecia os cabelos e o corpo, humedecia também o sabonete e botava um pouco do shampoo no ralo do box para fazer um pouco de espuma com os pés. E por fim não me esquecia de me secar levemente para não sujar a toalha. Pois, caso isso ocorresse, talvez eu tivesse que tomar banho de verdade, mas, desta vez, sob a supervisão de um adulto.

Pronto. Tudo para não sentir muito frio.

Lembrei-me disto depois de pensar na postagem abaixo que compartilhei.


E também após ler uma outra postagem sobre a situação dos moradores de rua da cidade de São Paulo, onde é relatado que os guardas municipais estão recolhendo os pertences mínimos dos pobres, entre os quais: cobertores, mantas, pedaços de papelão e tudo mais usado pelos irmãos sem-teto para se protegerem do frio que tem sido tão rigoroso com São Paulo nos últimos dias.
Leia a matéria aqui:
http://www.diariosp.com.br/mobile/noticia/detalhe/93017/gcm-tira-cobertas-de-moradores-de-rua-em-sao-paulo

Ora, se há problemas em os seres humanos moradores de rua não quererem ir para abrigos, se há qualquer outro tipo de problema para os mesmos preferirem ficar na rua, nada justifica lhes tomar os cobertores, papelões, mantas ou seja lá o que for que lhes proteja do frio.

Há suspeitas de que houve mortes de moradores de rua por hipotermia... Meu Deus...

Se somente a perspectiva de sentir um pouco de frio me fazia fingir tomar banho quente (não frio) só por medo de sentir um pouco de frio depois, que dirá uma pessoa que está morando na rua e que só possui os poucos panos que lhes restam na vida para dormir tendo como teto, quando muito, uma marquise ou papelões ou panos em um abrigo semelhante aos que eu fazia quando era criança para brincar de caverna.

Sim, acabo de fazer o que me foi ensinado fazer para não querer, para repugnar e para combater o sofrimento alheio: me colocar no lugar do outro. Não que eu esteja pondo em prática uma lição decorada, mas deixando pulsar o coração que a vida me deu e moldou.

Uma cidade higienizada assim permanece suja, porque tudo que é desumano é sujo. Eu fingia tomar banho e permanecia sujo. E o pior frio que se pode ter é o frio do coração. Sim, por vezes é inverno também em meu coração, não me excluo. Mas me é dada a chance sempre de reaquecê-lo. Na fotografia abaixo há um exemplo claro de um coração nenhum pouco frio, do coração que não abro mão de sempre querer para mim.


Leia sobre a matéria da imagem acima aqui:
http://www.plofnariz.com/2016/06/morador-de-rua-brasileiro-causa-comocao.html?m=1




2 comentários:

  1. A Prefeitura de SP precisa de higienização na alma! Quanta vaidade, quanta arrogância, quanta superficialidade! Uma coisa de cada vez! Quando passar o inverno e ou aos poucos, vai trabalhando os moradores para irem aceitando o abrigo, agora, tirar seus pertences, suas proteções, é desumano! Sinto muito por todos que tiveram que passar por experiências difíceis com relação ao frio, eu não tenho resistência para tanto! Boa matéria! Sensível e humana! Parabéns!

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    1. Obrigado amiga. Quem sabe em um futuro próximo nós escrevamos sobre coisas boas em relação também a isto. Se eu não crer nisto, morro de frio no coração. Mas porque creio, que seja então no lado esquerdo do peito de todos nós sempre verão!

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