sábado, 30 de abril de 2016

SERÁ O BENEDITO!

Dizia meu avô que a única coisa que ninguém pode nos tirar é o saber.

Eu entendo o velho Benedito....

Somente o curso primário e em cartas ministrava-me verdadeiras aulas de ortografia (digitalizei uma dessas cartas, é só clicar na imagem ao lado).

Um apaixonado pelo seu estado natal, o Maranhão, e sua capital, São Luiz, que, segundo ele, já foi chamada de “Atenas brasileira”, tamanha a quantidade de literatos que a capital já produziu em certa época.

Dizia o Benedito ter chegado a ler trezentas páginas por dia, “quando eu era vagabundo”, eu explico: quando ainda não lhe era exigido trabalhar pelo pão de cada dia.

É... O velho Bené tinha razão – conhecimento ninguém tira.

Podem até se negar a oferecê-lo. Mas retirá-lo, nunca. Podem até dele fazer mau uso. Mas apagá-lo, nunca.

Imagino o Bené jovem hoje. Bastar-lhe-ia um PC, um notebook, um tablet, ou mesmo um smartphone – conhecimento sem fio, sem folhas, sem fronteiras, dedos sem saliva para passar as páginas.

O que o Bené procuraria tanto conhecer via tanta tecnologia? Quais autores ele leria? Qual ou quais gêneros ele preferiria? São só divagações... Eu sei... É quase como imaginar Pelé na seleção de oitenta e dois (para a mim a melhor que vi jogar, mesmo tendo assistido a de setenta em vídeos – que me perdoem os setentistas...). Mas são apenas divagações, nada além disso.

Na verdade é a saudade que está batendo – de ouvi-lo afirmar sobre a perpétua posse do conhecimento, o que não o impedia de partilhá-lo comigo, ou com quem quer que lhe pedisse. “O que significa essa palavra?” “Procure no dicionário, não sou eterno, mas significa isso...” Meu avô, meu google.

Hoje eu tento passar conhecimento, na verdade tento estimular o desejo de conhecer nos outros, na certeza de que quanto mais leciono, mais também aprendo. Não tenho neto (nem filho, infelizmente) para me procurar em meu quarto querendo saber o significado de alguma palavra difícil e desconhecida, como eu fazia com o Bené. Tenho uma sala de aula, na verdade várias delas, para agora eu afirmar que o conhecimento ninguém tira.

Sim, o saber que eu passo e ao mesmo tempo ganho daqueles que me chamam professor.



Obs.: Texto escrito por em 12/2014.

Um comentário: